As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Caso Neymar, um divisor de águas?

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 23h30

A permanência de Neymar será um divisor de águas no futebol brasileiro, como tem sido dito por aí? Só o tempo dirá. Por enquanto, talvez não seja inútil relembrar como e por que chegamos até a situação atual.

Não adianta dizer que jogadores brasileiros sempre foram para a Europa, que Filó jogou pela Itália nos anos 1930 e Julinho Botelho arrasou na Fiorentina nos anos 1950. A expatriação sempre foi raridade, algo a se contar nos dedos até pelo menos meados dos anos 1980, começo dos 1990. O fenômeno do êxodo em massa de boleiros é recente e deve ser entendido em seu contexto.

Em primeiro lugar há a conjuntura internacional de economia globalizada, ou seja, de troca acelerada. O futebol, lembrou o historiador Eric Hobsbawm, é uma espécie de ponta de lança desse processo, algo como um termômetro ou bússola, um instrumento que aponta tendências e coloca-se à frente dos fatos. Na Europa, que sempre soube organizar o espetáculo, o futebol transformou-se em show internacional. Altamente rentável em escala mundial. Para alimentá-lo, o sistema precisa de astros, vindos de onde for. Antes havia empecilhos de ordem nacionalista ou protecionista. Hoje, na prática, as fronteiras para o futebol foram abolidas.

Essa circunstância histórica internacional entra em ressonância com condições específicas do Brasil: fragilidade econômica, má gestão dos clubes, legislação que adota o modelo exportador, omissão da CBF e, por fim, o conformismo que advém de um mal curado complexo de vira-latas – este último compartilhado por jogadores, treinadores, dirigentes, mídia e, não raro, a torcida.

As determinações de ordem econômica fornecem a base e sua persistência cria uma mentalidade difícil de ser modificada. Essa “cultura” diz o seguinte: “o jogador que não sai é um fracassado”. Ou: “aqui só ficam os pernas-de-pau, gente sem mercado lá fora”. Essa ideia, poucas vezes formulada às claras, vem ao encontro de certo pensamento da elite (e dos nossos “formadores de opinião”) em sua baixa estima por si mesma e pelo Brasil. O complexo de vira-latas funciona de maneira inconsciente. Por isso desafia a racionalidade.

Esses fatores todos trabalham concatenados, como um time bem treinado. O resultado nós conhecemos: a falência técnica do futebol jogado no País e uma seleção com a qual ninguém consegue se identificar direito.

No entanto, alguns fatores se alteraram. Cedo ou tarde, a História faz seu trabalho e tudo o que parecia inalterável muda. A crise norte-americana, com seu reflexo na economia europeia, trouxe desconfiança quanto à eficácia do modelo neoliberal, base da economia globalizada. Por outro lado, a economia brasileira estabilizou-se e cresceu. Hoje o Brasil é um dos países emergentes que mais atraem a atenção dos mercados no mundo. Fortaleceu-se. Em termos esportivos, vai realizar uma Copa do Mundo em 2014 e uma Olimpíada em 2016. Não é pouca coisa.

Pouco podemos fazer para alterar variáveis mundiais. Podemos, isto sim, aproveitar suas flutuações e fazer a lição de casa. A saber: melhorar a gestão dos clubes, buscar uma legislação esportiva mais equilibrada entre as partes, combater o conformismo, enfim, mostrar que podemos mudar as coisas e influir na realidade.

A inovação do Santos, no caso Neymar, não foi ter batido o pé e rejeitado a proposta “irrecusável” do Chelsea. Isso o próprio clube já havia feito antes como forma de forçar o comprador a chegar ao limite da oferta. O que se fez de diferente foi criar uma alternativa concreta de permanência para o garoto. Se ela se mostrar viável, se puder ser aplicada a outros casos e generalizar-se, aí então se poderá dizer que a permanência de Neymar foi um divisor de águas.

Não apenas para o Santos, mas para o futebol brasileiro em seu todo.

Boleiros 24/8/2010

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: