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Celebridades

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 21h52

Como vocês sabem (não dá para não saber), Ronaldo foi alvo de uma avalanche de mídia desde que sua transferência para o Corinthians foi noticiada. A chegada, o primeiro treino, a primeira balada, a primeira vez em que entrou em campo, o primeiro gol – tudo acompanhado de fogos de artifício, som e fúria, noticiado, analisado, debatido, discutido ad nauseam…

O que fazer? Ronaldo é uma celebridade. Como Madonna ou Michael Jackson. Celebridades são seres à parte no mundo contemporâneo. Não por acaso. Elas fazem alguma coisa bem, às vezes muito bem. Cantam, dançam, jogam futebol. Depois, a publicidade e o marketing fazem com que a imagem delas de certa forma se descole da pessoa, e se torne independente dessa atividade primária. Não importa muito se Michael Jackson é isto ou aquilo ou se Madonna já não é a mesma. Madonna é Madonna, Michael Jackson é Michael Jackson. E Ronaldo é Ronaldo. Desculpem as redundâncias, mas o que justamente define a celebridade… é o fato de ser célebre.

A celebridade é depositária de uma série de expectativas, às vezes desencontradas, o que a leva além da sua atividade primária. É o que explica Ronaldo ser admirado mesmo por gente que não curte futebol. É também o que explica (em parte) o seu gol de domingo ter sido comemorado não apenas por corintianos, mas por torcedores de outros times. Até mesmo por palmeirenses. O célebre transcende. Vai além das fronteiras da sua atividade. Expande limites e invade o imaginário de um imenso número de pessoas. Por isso é tão valioso do ponto de vista comercial.

Ronaldo desde cedo mostrou talento para esse exercício da celebridade. Seu ar falsamente frágil – dentes separados, cara de bebê ou de criança carente – mostrou-se capaz de comover corações femininos em comerciais de laticínios. Freud explica, é claro. A partir do impulso inicial, a celebridade ganha dinâmica própria, alimenta-se de si mesma e só faz crescer. Não importa, como no caso dele, que a atividade principal se desenvolva quase exclusivamente no exterior, seja interrompida por contusões, ou que seu comportamento posterior desminta a imagem de bom moço ou de criança inocente. Não é apenas que à celebridade tudo se perdoa – é que mesmo ações destoantes da moral média se incorporam à mitologia e a realimentam. Afinal, elas fazem o que muitos gostaríamos de fazer, mesmo que não possamos admiti-lo nem a nós mesmos.

Acresce, no caso Ronaldo, uma trajetória esportiva que parece tirada de um mau roteiro de filme, de tão inverossímil. Suas participações oscilantes nas Copas, três vezes melhor do mundo, as contusões graves, prognósticos sombrios e os retornos. Uma, duas, três vezes. Parece enredo de faroeste simplório. História de vitorioso, de lutador, que dá a volta por cima. Todo mundo gosta.

Por isso tudo, costumamos prestar muita atenção na aura que cerca a celebridade e nos esquecemos do que ela tem de melhor, a sua arte. Para voltar à essência: Ronaldo fez muita coisa neste domingo. Toques de classe, uma bola imprevista no travessão, um drible e um centro certeiro. E o gol de cabeça, produto mais da ótima colocação do que domínio do fundamento do cabeceio. Só podemos saudar tudo isso. Ronaldo chegou, teve seu primeiro treino, sua primeira balada, sua estreia, seu primeiro gol. Breve será figura familiar em campo e receberá marcação menos amistosa de adversários tietes. Tudo entrará na normalidade. E poderemos aplaudir aquilo que resta do seu futebol excepcional. Assim esperamos, nós que gostamos é de bola na rede e não damos a mínima para badalações e outras frescuras.

(Coluna Boleiros, 10/3/09)

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