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Chega de Saudade

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2011 | 13h59

Pois é, amigos, o ano já começou, um ano novinho em folha, que estréia hoje, cheio de promessas. Nesse 2008, ano de Olimpíada, vamos comemorar algumas datas redondas, importantes – os centenários de nascimento de Cartola e Guimarães Rosa, os 100 anos da morte de Machado de Assis, 50 anos da bossa nova e 40 do tropicalismo. Para nós, boleiros, uma efeméride importantíssima, os 50 anos da Copa da Suécia, quando o Brasil conquistou seu primeiro título mundial.
A maioria de nós nem era nascida, ou era muito pequena para lembrar direito daquele 29 de junho de 1958. Mas, como dizia o saudoso João Saldanha (que aliás, acaba de ganhar uma maravilhosa biografia, escrita por André Iki Siqueira), a gente não precisa ter sido contemporâneo de Nero para saber que o incêndio de Roma aconteceu. Basta consultar a história. E a história, por definição, é aquilo que diz respeito a todos nós. E assim é com 58, pois somos todos filhos daquela saga magnífica, saibamos disso ou não.
E isso porque com a conquista de 1958 começou a era de ouro do futebol brasileiro. O que pouca gente lembra é que a seleção saiu desacreditada do País e foi se firmando na competição. No ano anterior, havia perdido de 3 a 0 da Argentina no Campeonato Sul-Americano. Mas na Suécia, começou ganhando de 3 a 0 da Áustria, empatou com dura Inglaterra por 0 a 0 e finalmente chegou a prova dos noves, o momento de enfrentar a assustadora União Soviética. Naquele tempo, o mundo vivia dividido pelo guerra fria e, nos países do “ocidente cristão” achava-se que os comunistas comiam criancinhas no café da manhã. Além disso, havia a tecnologia soviética, que havia lançado ao ar o primeiro satélite artificial, o Sputnik, enchendo de pânico os Estados Unidos e, por tabela, todos os países alinhados. Dizia-se que, também na bola, os soviético eram ameaçadores e haviam inventado um tal “futebol científico” que era imbatível. Azar o nosso.
Nesse jogo, foram lançados os novatos Garrincha e Pelé, que estavam na reserva. Conta-se que o psicólogo da seleção havia desaconselhado a escalação dos dois, pois Garrincha seria um semi débil mental e Pelé, aos 17, ainda era imaturo para tamanha responsabilidade. Mas, pressionado pelos outros jogadores, o técnico Vicente Feola botou os dois no time, e eles não mais saíram. Um cronista da época descreve o início do jogo como “os cinco minutos mais frenéticos da história do futebol”. Garrincha arrasava seus marcadores pela ponta de direita e, logo aos 2’ Vavá aparava um centro de Mané e punha no fundo da rede de Yashin, tido como o maior goleiro de seu tempo. Aos 20’ do segundo tempo, Vavá marca de novo. Fim do futebol científico. A partir daí o mundo do futebol começou a prestar atenção ao Brasil. A seleção ganhou do País de Gales com gol de Pelé (seu primeiro em uma Copa), arrasou a França por 5 a 2 e, na final, aplicou o mesmo placar na Suécia, a dona da casa, com 2 gols de Pelé, dois de Vavá e um de Zagallo.
Pronto, o Brasil lavava a alma da tragédia do Maracanã em 1950 e era, pela primeira vez, o melhor do mundo. Ganhou jogando bonito com uma equipe que, na final, jogou com Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo. Um 4-2-4 que variava para 4-3-3, com Zagallo ajudando o meio de campo. Jogava bonito, de maneira ofensiva, uma equipe de grandes jogadores e dois gênios da bola, Pelé e Garrincha que, jogando juntos, jamais perderam um jogo pela seleção brasileira.
Vale lembrar que, naquela época o país também andava rápido e vivia tempo de euforia. O governo de Juscelino Kubitschek prometia 50 anos de desenvolvimento em 5. Enfim, havia a nova música surgindo, o cinema se reinventava, o teatro, a literatura e as artes plásticas procuravam novos caminhos, Brasília se construía. Um país novo, no qual tudo era novo, inclusive o futebol.
O que essa história bonita tem a ver com a gente? Tudo, pois ela nos pertence e, se não serve mais de modelo, continua a ser boa fonte de inspiração. Em 1958, o Brasil jogava para a frente. E, em 2008, vamos jogar no ataque ou na retranca?
Um excelente ano para todos.

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