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Chegou a hora de passar a régua

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 14h09

17/10/2006

Como é bonito ver a torcida do Flamengo cantar “ô, ô, ô, o Obina é melhor do
que o Eto’o!” Gosto disso. A auto-ironia do povo brasileiro é o que ele tem
de melhor. Sabe muito bem o torcedor do Mengo que seu time, na décima
posição, e com saldo de gols no vermelho (-1), não é exatamente um
Barcelona. Mesmo assim, no domingo, até parecia o Barça em seus melhores
dias, trocando a bola de pé em pé diante de um Corinthians sonado, como um
daqueles velhos pugilistas que se arrastam pelo ringue e nem conseguem
encontrar a lona para desabar. Francamente, deu dó. Foi 3 a 0 e poderia ter
sido muito mais, se os jogadores do Flamengo quisessem.
O que aconteceu com o Timão, o que está acontecendo, em certa medida, com
todo o futebol brasileiro? Era o que todos os que se interessam pelo futebol
se perguntavam ontem, na ressaca da rodada de domingo. Parece claro que
existe, no Corinthians, uma situação emergencial que tem de ser contornada,
caso ainda queira evitar o rebaixamento. Há uma nítida divisão no elenco,
como deixou claro Magrão na saída do jogo. Disse o volante, corintiano desde
pequenininho, que é preciso “honrar a camisa” e que deve jogar só quem tem
vontade. Não é difícil de entender: tem muita gente sem vontade de jogar.
Será a linha dura de Leão suficiente para injetar vitalidade em um elenco
que parece inerte? Ou, pelo contrário, tudo o que uma equipe traumatizada
não precisa é de um sargentão nesse momento de dificuldade? Como sempre,
haverá interpretações para todos os gostos sobre esse dilema.
O fato é que o Corinthians está pagando o preço por ter entrado numa
roubada. A conta iria chegar, como avisaram todos os comentaristas
responsáveis quando a parceria foi celebrada. Você não pode fazer negócio
com gente suspeita e achar que isso não vai respingar de algum jeito. A
longo prazo, esse tipo de acordo não dá certo. No caso do Corinthians, tudo
foi muito rápido. O time começou a se desmanchar, e as cisões no interior do
elenco foram ficando cada vez mais expostas. Leão entrou para tentar
cimentar essas rachaduras e não foi capaz porque o edifício inteiro parece
comprometido. O Corinthians chegou àquele estágio em que, aconteça o que
acontecer, é preciso passar uma régua, zerar tudo e repensar a vida.
Acontece com as pessoas, acontece com os clubes.
E a gente precisa dizer que o Corinthians é apenas um exemplo extremo do
atual estágio do futebol brasileiro, não um caso isolado. Nos últimos anos,
chegamos a um tal estado de desagregação do futebol que se criou ambiente
benéfico para aventuras irresponsáveis, tais como parcerias com empresas
fantasmas. Como as contas do futebol brasileiro não fecham mesmo, cai-se na
tentação de buscar dinheiro em qualquer parte, de qualquer um. Qualquer
grana, de qualquer origem, na vã ilusão de que “dinheiro não fede”, como
dizia o imperador romano que mandou tributar os mictórios públicos.
No desespero (porque o jogador é caro, a TV paga pouco, a publicidade é
irrisória e a administração, precária), faz-se pacto com o diabo e o
resultado é o que se vê. Poucos meses atrás se dizia que o Corinthians era o
único clube capitalizado do futebol brasileiro. Agora encontra-se à beira da
Segunda Divisão. Portanto a hora é boa para repensar o modelo, e não estou
falando apenas do Corinthians, mas do futebol brasileiro inteiro, que está
falido.
Como tudo isso leva tempo, melhor é fazer como a galera do Mengo e rir de
nós mesmos. Não resolve. Mas alivia.

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