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Choro de vencedor

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 21h28

4/3/2008
Há um diálogo de lágrimas no futebol brasileiro. Começou com a choradeira do
Botafogo pela perda da Taça Guanabara, prosseguiu com a ironia de Souza, do
Flamengo, e chegou até São Paulo com o “choro’’ de Valdivia ao marcar o gol
da vitória sobre o Corinthians.
Muito já se falou sobre as “lágrimas’’ de Valdivia no clássico. Ele mesmo
disse que o zagueiro William o havia chamado de chorão e por isso havia
comemorado o gol daquela forma, esfregando os olhos como bebê desmamado.
Mostra que o chileno tem senso de ironia. E, pelo desenvolvimento do jogo,
depois do gol, revela também que sabe amplificar a superioridade numérica
em vantagem psicológica. Pois o que fez, depois de ter marcado o gol e
“chorado”, foi desestabilizar o adversário e deixá-lo ainda mais nervoso.
Quer dizer, com menos possibilidades de reagir e tentar o empate. O Mago,
com suas firulas e malandragens, manipulou o oponente e contribuiu para a
vitória do seu time também no aspecto emocional. Esse é um aspecto do jogo
que não pode ser ignorado.
Quem já viu em ação grandes jogadores sabe que eles eram mestres também
nessa arte de desequilibrar emocionalmente o rival para vencer. Pelé fazia
isso como ninguém. E só os idiotas da objetividade podem dizer, sem corar,
que Mané Garrincha era dispersivo ao driblar para trás, passar o pé na bola
e permitir que seu marcador já vencido se recuperasse… para levar novo
drible. Fazendo assim, Mané se divertia. Mas também moía o ego do
adversário. E esse é um fator que decide jogos.
Não o único, claro. Mas, numa época de mentalidade tecnocrática, em que se
supervaloriza a tática acima de tudo, a importância do aspecto emocional dos
jogos deve ser lembrada mais uma vez. Nelson Rodrigues dizia que o futebol
se ganha com a alma. Foi quem melhor viu a influência esses fatores
imponderáveis e não mensuráveis no resultado de um jogo. Enxergava mais do
que os outros, embora fosse míope e não entendesse patavinas de estratégias,
táticas e outras disciplinas militares.
Valdivia não é nenhum fenômeno. Sem ser fora-de-série, é muito bom
tecnicamente e, como se sabe, em terra de cego…,etc. Mas é dos poucos que
sabem tirar vantagem dessa superioridade técnica. Valdivia trabalha com os
pés e com a mente. Ganhou o jogo para o Palmeiras na base da inteligência.
Fez das lágrimas um fator tático.
ÍDOLOS
Limpando uns papéis velhos no escritório, encontrei o recorte, já amarelado,
de um artigo da seção de esportes do jornal Corriere della Sera. Não sei
mais por que o guardei e trouxe comigo da Itália para cá. Talvez porque o
artigo, assinado por Giorgio Tosatti, seja muito bem escrito. Começa assim:
“Sorrio ao recordar do tempo em que alguns duvidavam das virtudes
futebolísticas de Adriano e o julgavam dispensável. Agora todos estão de
acordo: é o melhor goleador do mundo.”
Tosatti suspirava ao imaginar o que poderia ser a Squadra Azzurra caso
dispusesse de um centroavante como o Imperador. Sim, esse papel amarelado
falava do tempo em que Adriano ostentava com orgulho o apelido imperial, o
mesmo que ele agora reivindica e diz que “ralou muito” para conquistar. Não
vai deixar que a imprensa tire isso dele, avisou. Bem, se Adriano está sendo
prejudicado não é pela imprensa. Se estivesse jogando bem, quem se
importaria com o que faz à noite? O Imperador falou grosso na véspera, porém
pouco dele se viu contra o Mirassol. Fala-se sempre, como um mantra, que o
Brasil não respeita seus ídolos. Será que os ídolos respeitam o seu público?

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