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Choro de Vencedor

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2011 | 14h00

Há um diálogo de lágrimas no futebol brasileiro. Começou com a choradeira do Botafogo pela perda da Taça Guanabara, prosseguiu com a ironia de Souza, do Flamengo, e chegou até São Paulo com o “choro” de Valdívia ao marcar o gol da vitória sobre o Corinthians.
Muito já se falou sobre as “lágrimas” de Valdívia no clássico. Ele mesmo disse que o zagueiro William o havia chamado de chorão e por isso havia comemorado o gol daquela forma, esfregando os olhos como bebê desmamado. Mostra que o chileno tem senso de ironia. E, pelo desenvolvimento do jogo, depois do gol, revela também que ele sabe amplificar a superioridade numérica em vantagem psicológica. Pois o que fez, depois de ter marcado o gol e “chorado”, foi desestabilizar o adversário e deixá-lo ainda mais nervoso. Quer dizer, com menos possibilidades de reagir e tentar o empate. O Mago, com suas firulas e malandragens, manipulou o oponente e contribuiu para a vitória do seu time também no aspecto emocional. E esse é um aspecto do jogo que não pode ser ignorado.
Quem já viu em ação grandes jogadores sabe que eles eram mestres, também, nessa arte de desequilibrar emocionalmente o oponente para vencer. Pelé fazia isso como ninguém. E só os idiotas da objetividade podem dizer, sem corar, que Mané Garrincha era dispersivo ao driblar para trás, passar o pé na bola e permitir que o seu marcador já vencido se recuperasse..para levar novo drible. Fazendo assim, Mané se divertia. Mas também moía o ego do adversário. E esse é um fator que decide jogos.
Não o único, claro. Mas, numa época de mentalidade tecnocrática, em que se supervaloriza a tática acima de tudo, a importância do aspecto emocional dos jogos deve ser lembrada mais uma vez. Nelson Rodrigues dizia que o futebol se ganha com a alma. Foi quem melhor viu a influência esses fatores imponderáveis e não mensuráveis no resultado de um jogo. Enxergava mais do que os outros, embora fosse míope e não entendesse patavinas de estratégias, táticas e outras disciplinas militares.
Valdívia não é nenhum fenômeno. Sem ser um fora de série, é muito bom tecnicamente e, como se sabe, em terra de cego…,etc. Mas é um dos poucos que sabem tirar vantagem dessa superioridade técnica. Valdívia trabalha com os pés e com a mente. Ganhou o jogo para o Palmeiras na base da inteligência.
ÍDOLOS
Limpando uns papéis velhos no escritório, encontrei o recorte, já amarelado, de um artigo da seção de esportes do jornal Corriere della Sera. Não sei mais por que o guardei e trouxe comigo da Itália para cá. Talvez por que o artigo, assinado por Giorgio Tosatti, seja muito bem escrito. Começa assim: “Sorrio ao recordar do tempo em que alguns duvidavam das virtudes futebolísticas de Adriano e o julgavam dispensável. Agora todos estão de acordo: é o melhor goleador do mundo”.
Tosatti suspirava ao imaginar o que poderia ser a Squadra Azzurra caso dispusesse de um centroavante como o Imperador. Sim, esse papel amarelado falava do tempo em que Adriano ostentava com orgulho o apelido imperial, o mesmo que ele agora reivindica e diz que “ralou muito” para conquistar. Não vai deixar que a imprensa tire isso dele, avisou. Bem, se Adriano está sendo prejudicado não é pela imprensa. Se estivesse jogando bem, quem se importaria com o que faz à noite? O Imperador falou grosso na véspera, porém pouco dele se viu contra o Mirassol. Fala-se sempre, como um mantra, que o Brasil não respeita seus ídolos. Será que os ídolos respeitam o seu público?

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