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Coisas estranhas do mundo do futebol

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2011 | 14h01

Confesso que tinha muita curiosidade em ver Palmeiras x São Paulo, menos para ser surpreendido com alguma milagrosa invenção tática de Antonio Carlos e mais para conferir se melhorava a disposição do grupo palmeirense. Melhorou, não é? Incrível como essas coisas acontecem no futebol. O time apático, que perdeu de goleada do São Caetano, transformou-se num leão em campo e bateu o São Paulo. Tudo isso por causa da saída de Muricy e da chegada do Tonhão? Sei lá.
O que sei, sabemos todos, é que, em geral, a mudança de técnico é vitamina poderosa para o elenco. Jogadores indolentes passam a voar em campo, omissos tornam-se raçudos, chinelinhos curam-se por milagre. Às vezes esse efeito é duradouro. Outras, passa rápido como vento. Duas semanas depois, alguns times voltam ao desinteresse habitual. Há técnicos que carregam esse estigma do efeito-relâmpago. São em geral, super-autoritários, verdadeiros Pinochets do mundo da bola. Quando chegam, põem fogo em tudo, e todos dançam conforme a sua música. Logo em seguida vem o cansaço natural e o remédio começa a perder efeito. Ninguém suporta viver sob o tacão dos mandões durante muito tempo.
Embora no plano político algumas ditaduras tenham sido longas, no mundo do futebol o técnico sargentão parece ser um remédio de validade estreita. Mais durável é de tipo agregador, aquele que faz de um amontoado de gente um grupo coeso. Esses tipos são raros. Será esse o perfil do Antonio Carlos? Que funcionou na estréia, não resta dúvida. Vamos ver como se comporta na sequência.
Em todo caso, mesmo desejando sucesso para o técnico recém-chegado, parecem precipitadas algumas idéias que circulam por aí a respeito de Muricy Ramalho. De repente, o cara ficou ultrapassado, tanto na maneira de se relacionar com o grupo quanto na parte tática. Dizem que ele não fala com os jogadores. E que seus times funcionam na base de uma defesa sólida e um ataque limitado ao chuveirinho. Mas o homem não era um gênio, um autêntico discípulo de Telê Santana enquanto ganhava três títulos brasileiros enfileirados com o São Paulo? Não era eleito, ano após ano, o melhor técnico, já que votamos sempre nos vencedores?
Enfim, como não vejo no futebol essa lógica toda, abro sempre espaço para a influência do acaso, e de outras coisas que não podem ser explicadas pela nossa vã lógica cartesiana, aquela que liga necessariamente um efeito e uma causa. Tudo, no futebol, como na própria vida, é complexo demais para comportar explicações simplistas. Sempre sobra uma margem de manobra para o inexplicável. Aliás, o próprio Palmeiras é um desses casos mais notáveis. Desde o ano passado, o Palestra tem sido festejado como o clube que faz tudo certo. Renovou-se politicamente com um homem da melhor qualidade em seu comando. Fez parceria com uma empresa poderosa, contratou jogadores e manteve pelo menos as estrelas mais brilhantes do seu elenco, como Clayton Xavier e Diego Souza. De repente, a máquina começou a dar tilt e as coisas saíram dos eixos. Uma quebra de hierarquia e pronto: lá se vai um técnico. Entra um interino que vai bem até chegar outro treinador de renome. Tudo parece encaminhar-se para uma grande conquista, mas faz água na reta final. O resto, todos sabem. O futebol é tão louco que eu não ficaria admirado se Antonio Carlos, com toda sua inexperiência no cargo, conseguisse dar um jeito nesse complexo e insondável mistério chamado Sociedade Esportiva Palmeiras. Passaríamos, então, a ter teorias plausíveis para explicar o sucesso. Como se ele fosse inevitável.

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