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Coluna Ainda tem samba para os gringos? *

Luiz Zanin Oricchio

16 de julho de 2013 | 13h27

Na ótima reportagem de ontem neste caderno (“Brasil investe em sul-americanos ‘bons e baratos’”) o repórter Fábio Hecico nota que o futebol brasileiro passou a ter novo sotaque, o castelhano. Justo. Se “importações” de pé de obra dos vizinhos não chegam a constituir novidade, nunca antes na História deste País eles vieram em tão grande número. O colega Hecico, o Fabião, contou nada menos de 44 estrangeiros atuando na Primeira Divisão. A maioria composta de uruguaios, paraguaios e argentinos. Mas há até um norte-americano, Freddy Adu, batendo bola entre nós. E dois europeus, o espanhol Fran Mérida e o holandês Clarence Seedorf.

Estaria o Brasil a caminho de se transformar numa multinacional do futebol, como as nações europeias? Ainda não é para já, é o que se pode dizer. Embora esses números sejam inéditos, não se comparam às proporções europeias que, em algumas equipes, chegam à fronteira da quase completa desnacionalização. Estamos longe disso. E talvez nunca cheguemos à condição de alguns clubes ingleses, como o Arsenal, que se formam, entre titulares e reservas, técnico incluído, sem a presença de sequer um único inglês.

A migração dos gringos para o Brasil é fácil de entender. Tão fácil quanto a exportação maciça das jovens promessas brasileiras para o exterior. São as forças da economia de mercado e ponto final. O Brasil não tem estrutura (e nem vontade) de manter seus craques. O mesmo acontece com os países vizinhos. Quando os jogadores sul-americanos de língua hispânica não conseguem mercado na Europa, procuram-no no vizinho gigante e de economia forte, apesar dos tropeços atuais. Ganham aqui bem mais do que em seus países de origem.

Criou-se, dessa forma, uma corrente migratória em direção ao Brasil. Assim como se criou corrente semelhante do Brasil em direção à Europa, Rússia, ex-repúblicas soviéticas e o assim chamado “mundo árabe”. Na cadeia alimentar do capitalismo da bola, o peixe grande come o peixe intermediário, e o peixe mediano devora o peixe pequeno. É o dinheiro que comanda a direção desses fluxos, bem como sua frequência e intensidade.

A presença de nossos vizinhos por aqui já tem história. Todos temos gringos queridos na história de nossos clubes de coração. Os de hoje atendem pelos nomes de Guerrero, Valdívia, Montillo, D’Alessandro e tantos outros. No passado, foram Cejas e Rodolfo Rodrigues, Pablo Forlán (pai do atual Diego Forlán, do Internacional), Dario Pereyra, Doval e outros tantos.

Mas a presença estrangeira hoje já é tão significativa que alguns clubes, como o Grêmio, já pedem para que a cota de três na escalação de um time possa ser ampliada. O Grêmio tem em seu elenco os estrangeiros Riveros, Maxi Rodrigues, Barcos e Vargas. Ou seja, um clube pode ter mais atletas não brasileiros, mas só pode escalar três de cada vez. Com o mercado hispânico aquecido no Brasil, busca-se uma legislação que atenda às necessidades dos clubes. Será que vai colar?

Qual a razão dessa limitação a três do número de estrangeiros escalados por time? Só posso ver duas motivações: reserva de mercado para os jogadores brasileiros e temor da descaracterização do nosso estilo de jogo. Será que se justificam?

A tal reserva de mercado teria por fim, talvez, proteger o investimento dos clubes nas categorias de base. Desestimulados pela importação fácil, os clubes deixariam de dar importância ao craque feito em casa. Mas será mesmo? Hoje em dia o que fazem as categorias de base senão criar talentos para serem rapidamente vendidos ao exterior? Desse modo, a presença de mais estrangeiros em nada afetaria a existência dessas incubadoras de craques para desfrute europeu.

A outra razão me parece mais consistente. Em tese, um número excessivo de estrangeiros pode, com sua maneira diferente de jogar, desfigurar um estilo já consagrado. Vimos o que aconteceu com o futebol europeu. Há duas décadas sabia-se mais ou menos como jogava um time inglês, um alemão e um espanhol. Hoje essas escolas estão em vias de diluição, se é que não acabaram de vez. Os estilos dependem muito mais da filosofia de um treinador, ou dos atletas disponíveis no elenco, do que da tradição de um país. Seria bom preservar esses estilos, da mesma forma que preservamos espécies ameaçadas de extinção?

Eis a dúvida. Teríamos um estilo brasileiro a preservar ou ele já foi para o brejo, junto com outros fatores de identidade nacional tornados obsoletos pela globalização? A questão não é mais de termos gringos no samba, mas se teríamos ainda um samba puro a ser ameaçado pela presença maciça de gringos.

* Versão integral da coluna publicada nas páginas de Esportes do Estadão

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