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Começou o ano político *

Luiz Zanin Oricchio

07 de janeiro de 2014 | 14h03

Começou o ano político. E esta não é uma coluna de futebol? Mas quem disse que futebol e política andam separados? Você não soube que o Blatter falou mal da Copa no Brasil ("É a mais atrasada de todas que já vi"), mas depois se desdisse quando a Dilma botou o time em campo e retrucou?

Para o bem ou para o mal, teremos em 2014 um ano interessante, com Copa do Mundo e eleições praticamente encavaladas. Terminada a Copa, começa a campanha, para valer, da sucessão no Planalto. A guerra sem tréguas em que se transformou a política brasileira refletirá de alguma forma o que aconteceu em campo. E também fora dele. Claro que se a Copa for um sucesso em termos de organização, será um trunfo para Dilma. Se vier o caos, como muita gente prevê (e, no fundo, deseja), a vantagem será da oposição.

Vejo esse aspecto da organização como até mais importante do que o resultado em campo. Não sei se uma frustração com a derrota, ou pelo contrário, uma euforia com o hexa, poderia influenciar os destinos da nação. Não sei, mas duvido. É lógico que a maior parte das pessoas ficará satisfeita com mais uma vitória da seleção. Mas mudará seu voto por causa disso? Ou, pensando pelo outro lado, a frustração com a derrota poderá fazer alguém que antes apoiava o governo votar com a oposição? Não creio. Mas o sucesso ou o fiasco da organização podem influenciar. O Brasil é uma potência emergente, como se diz. Mostrará ao mundo que está preparado para ocupar um lugar de destaque ou se revelará aquém das expectativas? Essa repercussão externa, positiva ou negativa, terá efeitos dentro do País? Entendo que sim, em parte porque o brasileiro continua muito dependente do que falam dele no exterior. A insegurança é o calcanhar de aquiles da personalidade brasileira.

Por outro lado, é bem provável que as manifestações de rua, que entraram em refluxo, voltem a acontecer durante a Copa. Ou vocês acham que o pessoal perderia a oportunidade propiciada pelo mais midiático evento do calendário mundial? Prova disso é que um ensaio já está marcado para este mês, autointitulado "Não vai ter Copa". Será, se acontecer, apenas um aquecimento para junho, quando aí então o bicho pode pegar de vez. Quem frequenta as redes sociais sabe que um contramovimento já se anuncia, diferenciando-se do outro apenas por uma vírgula: "Não, vai ter Copa". Com essa sutileza do idioma, uma vírgula que inverte o sentido da frase original, essa facção sustenta que os estádios já estão quase prontos, que tudo vai dar certo e teremos a melhor Copa de todos os tempos, como quer a presidente.

De qualquer forma, qualquer que seja a posição relativa dos ativistas no espectro político, nenhum deles deixará de tirar sua casquinha da Copa do Mundo. Podem estar certos disso. De modo que durante o torneio teremos de nos ocupar não apenas com o que farão as seleções em campo, mas com a temperatura nas ruas e de como tudo isso repercutirá nas expectativas do distinto público interno. A eleição de outubro será o terceiro tempo desse jogo de gente grande. Jogo no qual não raro vale botar a mão na bola e aplicar canelada no adversário sem que o juiz dê a mínima. Nele, o feio é perder, como disse um praticante desse esporte. Se pudéssemos formular um desejo para 2014 seria termos fair-play na Copa como no jogo político. Mas talvez seja irrealista.

Estrangeiros. A CBF aumentou de três para cinco o número de estrangeiros que podem ser escalados. A mudança, pedida por clubes como Cruzeiro, Grêmio e Vitória, não faz mais do que refletir a realidade econômica e futebolística. Exportador de seus melhores boleiros, o Brasil importa de outros países da América do Sul (em especial) jogadores que não tiveram mercado na Europa, ou em outros continentes. Assim como os times europeus viraram uma geleia geral de talentos internacionais, as equipes brasileiras podem se tornar uma mescla do que restou pelo continente depois de os europeus já terem passado sua peneira e garimpado a nata. É bom para o Brasil? Não creio. Mas o que temos mesmo a preservar do nosso estilo? A antiga escola brasileira de futebol já era.

* Coluna publicada originalmente na seção de Esportes do Estadão

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