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Como botar os pontos nos iis

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 22h38

Dizem que o jogador mudou. Mas ninguém diz que os clubes também mudaram.” Nesse período de entressafra de verão, fraco em notícias e forte em boatarias e declarações sem sal, essa foi para mim a melhor frase dita por um jogador em muito tempo.

Quem falou foi Kléber ? o “gladiador”, esclareça-se ? que já passou pelo Palmeiras (para onde talvez volte) e encontra-se no Cruzeiro. Um repórter de rádio lhe perguntou se ainda tinha o sonho de fazer carreira na Europa. Kléber, que já atuou no futebol ucraniano, mas não na Meca europeia (Itália, Inglaterra, Espanha), respondeu que não. Descartava a hipótese? Também não. Iria, “desde que a proposta fosse irrecusável”. Mas se ela não aparecesse, nem por isso ficaria frustrado. Estava bem por aqui, e ficaria de bom grado, “desde que os clubes brasileiros também quisessem me manter no País”. E, nesse ponto, disse a tal frase que me tocou pela franqueza e lucidez.

O que ele quis dizer, afinal? Que ainda ficamos indignados, mesmo que pareça divertido, quando um pirralho mal saído dos cueiros afirma que seu sonho é jogar no Barcelona ou no Milan. (Isso antes mesmo de sonhar em ser titular do clube onde joga, claro). Mas deixamos barato quando o cartola declara que precisa vender um ou dois dos melhores jogadores do “plantel” para fechar o caixa.

No fundo, tanto o garoto quanto o dirigente de alma contábil falam o mesmo idioma. Não se contradizem nem se opõem ? fazem parte do mesmo e único sistema. E, se quisermos mudar alguma coisa na mentalidade do futebol brasileiro, é esse sistema que devemos combater. Não adianta maldizer jogadores “mercenários” ou cartolas “gananciosos”. Ambos, em sua alienação fundamental, estão na mesma. São peças da mesma engrenagem.

Para enxergar alguma coisa desse mecanismo, convém olhá-lo de fora. O que exige certo senso crítico, e também algum distanciamento. Qualidades que, em nosso preconceito, não costumamos associar a jogadores de futebol. Daí a surpresa ? agradável ? quando um dos nossos boleiros vê mais longe que os melhores analistas do futebol e consegue botar o dedo na ferida. Com sua pequena e incisiva frase, Kléber vai ao “x” da questão: todas as partes envolvidas são cúmplices no que vem acontecendo ao futebol brasileiro ? jogadores, agentes, a CBF, cartolas e também, por omissão, os “especialistas”. Somos todos cúmplices ou, no mínimo, praticamos a chamada política do avestruz, aquela que consiste em enfiar a cabeça na areia para não ver o que está acontecendo na superfície. Como se a realidade deixasse de existir pelo simples fato de nos recusarmos a enxergá-la.

Daí nos escandalizarmos (ou nos divertirmos, dá no mesmo) com fenômenos recentes, como a profusão de veteranos em atividade no nosso futebol que, como lembrou Ugo Giorgetti em sua última coluna, há muito tempo não traz uma verdadeira revelação jovem. Sem nos darmos conta, somos todos responsáveis por essa mentalidade exportadora, que torna inútil o investimento em categorias de base e prolonga artificialmente a carreira dos masters.

Como disse um amigo, não se sabe como nenhum clube teve a ideia de sondar o Gigghia quando ele esteve no Rio para deixar a marca dos pés na calçada da fama do Maracanã. Do jeito que a coisa anda, o responsável pela vitória do Uruguai sobre o Brasil em 1950 ainda teria o que fazer em nosso futebol.

(Coluna Boleiros, 12/1/10)

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