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Como diria o velho Nelson

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2011 | 14h04

Vamos supor que o Fluminense ganhe a Libertadores amanhã diante da LDU. Se fosse vivo, Nelson Rodrigues, tricolor de carteirinha, diria que a vitória do seu time já estava escrita há 5 mil anos. Se perdesse, talvez Nelson dissesse que se tratava de uma catástrofe comparável à de Canudos; que a data seria lembrada com a Hiroshima das Laranjeiras. De qualquer forma, aconteça o que acontecer, não teremos quem cante a vitória, ou chore a derrota, com a ênfase e a inventividade de Nelson Rodrigues.
Mas, também de qualquer forma, não há, durante a semana, jogo que interesse mais ao futebol brasileiro do que este. Mesmo se você não é fluminense, mesmo se você é Flamengo e, portanto, está secando, mesmo se você for corintiano ou santista e estiver mais preocupado com a série B – mesmo assim, acho difícil alguém gostar de futebol e permanecer indiferente ao que vai se passar no Maracanã amanhã à noite.
É jogo para se transformar em grande tragédia ou enorme consagração. Jogo, portanto, para mexer com todo mundo. Com toda a cidade. Com o País inteiro. Acho que, apesar do primeiro tempo pífio em Quito, o Flu tem todas as condições de reverter a desvantagem de 4 a 2 do primeiro jogo. E acho difícil, mesmo, que esse time leve e inspirado, um dos melhores do Brasil na atualidade, repita aquela partida indiferente que fez no Equador na semana passada. Ainda mais, como deverá ser o caso, quando empurrado por sua enorme torcida no velho Maraca. Em qualquer caso, deverá ser um grande jogo. Um tenso e emocionante jogo, desses que o Campeonato Brasileiro tem nos sonegado sistematicamente.
Sim, porque é impossível deixar de observar o contraste entre competições como a fase final da Libertadores e da Eurocopa e o marasmo do nosso principal campeonato. Nesta rodada do fim de semana foram seis empates em dez jogos. Isso, em si, quer dizer pouco, pois existem empates exuberantes, cheios de adrenalina e emoção futebolística. Não foi o caso, pelo menos nos jogos que pude observar, mesmo que parcialmente. Talvez a maior façanha da rodada tenha sido a do Flamengo, que derrotou o Sport na temível “Bombonilha” – perguntem ao Corinthians se ele sabe o que isso significa. Mas os empates entre Santos e Portuguesa, Cruzeiro e São Paulo, Fluminense e Botafogo, Grêmio e Internacional deixaram uma profunda impressão de tédio no ar.
E não venham me dizer que a culpa é do sistema de pontos corridos. Você pode ter excelentes e emocionantes jogos nesse sistema. Mas, para isso, é preciso haver motivação e qualidade técnica mínimas. Senão, com o perdão da expressão, a vaca vai para o brejo, como parece que está indo, há tantos anos, sem se atolar de vez, mas sem conseguir se safar jamais do pântano. Pobre futebol brasileiro, que vem sendo, talvez pela primeira vez em tantos anos, comparado desfavoravelmente ao da Europa. Eles, que eram os retranqueiros e escravos da estratégia e da tática, se revelam os criativos, inclusive consagrando uma seleção de toque de bola, como a da Espanha. E nós passamos a ser os limitados, o paraíso dos volantes de contenção e dos beques de fazenda.
E, uma vez acabada a Libertadores, terminada a Eurocopa, e encerradas as celebrações da mais bela das Copas do Mundo, a de 1958 na Suécia, é com esse nosso Campeonato Brasileiro mesmo que teremos de nos divertir. Está chegando a hora de cair na real. E já que comecei com o velho Nelson, termino com ele. O que ele não diria ao ver a Europa praticando um futebol ofensivo que o Brasil considera ultrapassado e não tem mais coragem de jogar?

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