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Como Ronaldo derrotou o Santos mais uma vez

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2011 | 23h08

Por incrível que pareça, a emocionante despedida de Ronaldo continua a ser o melhor bálsamo para a ferida da precoce eliminação do Corinthians na pré-Libertadores. Domingo, no Pacaembu, vimos mais um capítulo desse longo adeus do Fenômeno. Acompanhado pelos filhos, desfilou pelo gramado, recebeu placa de agradecimento, teve seu nome chamado pela torcida e a ela dirigiu-se com microfone na mão, jurando ser eternamente “mais um louco desse bando” – alusão ao cântico das arquibancadas. Hostilizado há pouco por uma dessas torcidas organizadas, Ronaldo não apenas foi perdoado como passou a figurar na galeria das figuras emblemáticas da história do clube. Como se a própria torcida, que lhe cobrava mais futebol, percebesse que Ronaldo, agora aposentado, pode ser tão útil para o clube como quando mostrava futebol dentro do campo, na sua primeira temporada, em 2009.
Naquele ano, o Fenômeno redescobriu seu melhor futebol numa antológica partida na Vila Belmiro, a primeira da final do Campeonato Paulista. Nela, marcou dois gols de antologia, gols de craque total, matador impiedoso e frio que sempre foi. Até hoje os santistas lembram, com respeito, desses dois lances: o primeiro, a matada perfeita de uma bola dificílima, que vinha do alto, escondendo-a do zagueiro e depois morrendo no fundo da rede. O segundo, o drible no oponente, a percepção de que o goleiro estava adiantado e o toque sutil, por cobertura. Duas pinturas.
No domingo, alvo de homenagens, Ronaldo pode ter beneficiado mais uma vez o Corinthians, que mostrou força e consistência diante de um Santos confuso e cansado a maior parte do jogo.
Nelson Rodrigues, sempre ele, dizia que no futebol a alma é que vence. Tecnocratas não gostam desse tipo de linguagem. Desejam para o futebol a aridez dos números e das táticas, como se essas abstrações aritméticas pudessem dar conta das infinitas variações que se passam durante aqueles 90 minutos entre as quatro linhas do gramado. Por que um time entra apático e indiferente, enquanto outro joga com a determinação de um faminto que vai em busca do prato de comida? Simples motivação, diria um; mistérios da alma, diria outro.
O fato é que o Corinthians, desde sua eliminação na Libertadores, das perdas de Roberto Carlos e Ronaldo, e, agora, da venda de Jucilei, vem acelerando no Campeonato Paulista. Cura feridas vencendo clássicos – contra o arquirrival Palmeiras e agora contra o Santos – o que é a melhor maneira de cicatrizá-las. A manter esse grau de determinação, mesmo com elenco tecnicamente talvez abaixo dos rivais (em especial São Paulo e Santos) será por certo um dos sérios candidatos ao título paulista.
Fator Ronaldo à parte, é interessante notar como os times crescem quando se reencontram com sua tradição. O que é uma tradição? Uma forma de jogar aprovada pela torcida, sedimentada geração após geração. Um estilo, uma marca registrada, um modo de ser, talvez uma filosofia de vida. Embora o Corinthians tenha vivido seus períodos “clássicos”, como quando foi dirigido pelo cerebral Carlos Alberto Parreira, por exemplo, sua força vem daquilo que se convencionou chamar de “raça corintiana”. Ora, toda torcida gosta de ver raça por parte dos seus jogadores. Mas essa característica cai como luva em alguns times, como o Grêmio e o Corinthians. Essa dedicação, o esforço, a determinação que muitas vezes substitui a classe e o futebol bem jogado, marcaram o Corinthians em várias ocasiões de sua história. Ontem, ela mais uma vez estava presente no Pacaembu. Foi o maior fator da vitória, inspirado, por paradoxo, pela despedida de um jogador técnico por excelência. Coisas do futebol.
Já a tradição do Santos é outra. Inspirado eternamente pelo mágico time da era Pelé, o alvinegro praiano reencontra sua alma no futebol leve, ofensivo, criativo, técnico. Nem sempre tem jogadores à disposição para colocar em prática essa filosofia de jogo – e de vida. Agora tem. Só não pode ser amarrado por um excesso de cautelas e de volantes no meio de campo. Esse time aspira à liberdade. Adilson deve lembrar que quem vai contra a tradição de um clube acaba por quebrar a cara. Assim é o futebol.

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