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Confissões de um pecador

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 20h58

2/10/2007

Talvez eu não devesse voltar ao assunto. Afinal, todos os grandes cronistas
esportivos já escreveram sobre a seleção das meninas, o que teria eu a
acrescentar? Mas, afinal, devo ser fiel a mim mesmo, e confessar que fazia
tempo que a minha, digamos assim, emoção futebolística não era mobilizada a
esse ponto. Acompanhei, de leve, os primeiros jogos da Copa do Mundo na
China e esse time foi me conquistando aos poucos. Caí de quatro, exatamente
como as adversárias, naquele jogo contra os Estados Unidos. E tive o prazer,
nos dias que separavam aquela partida do jogo final, de ver as meninas
desbancar os marmanjos no noticiário, coisa inédita até agora. Feitas as
contas, na semana passada, pela primeira vez, o futebol feminino foi levado
a sério neste país.
E isso não aconteceu, vejam, por qualquer imposição de ordem racional, o que
também seria legítimo. Algum raciocínio do tipo: a modalidade já é praticada
para valer em vários países, por que não o seria no Brasil, afinal aqui não
é (ou era?) o país do futebol? Mas não se deu nada disso. O que aconteceu
foi, de fato, um caso de amor, de paixão repentina, que tomou conta do país.
Nas ruas, nos botecos e, pelo que consta, até nos salões de beleza só se
falava de Marta, Cristiane, Formiga & Cia.
Por quê? Não sei ao certo. Não sou bom de certezas, como colegas mais
afortunados. Mas tenho o direito de testar hipóteses, como recomenda um
mandarim do jornalismo caboclo, até para casos bem mais graves que uma
disputa de copa do mundo feminina. Para meu consumo doméstico, encontro esta
conjectura, simples e cristalina, simplista mesmo, se quiserem: ao ver as
meninas jogando, nos lembramos de como o futebol brasileiro já foi grande e
inventivo. Bonito e eficiente ao mesmo tempo. Futebol-arte.
Sei que pareço estar incorrendo no pior dos pecados, o da nostalgia. E, como
pecado pouco é bobagem, cometo logo outro – o do romantismo. São duas
palavras que, ligadas, bastam para relegar um sujeito ao limbo hoje em dia –
nostalgia e romantismo. O nostálgico vive no passado e o mundo é um eterno
presente. Já o romântico não tem sentido prático e o mundo é o das coisas
factíveis, que se podem pegar, cheirar, morder: pão pão, queijo queijo. Pois
bem, também a mim – e mais a uma bela multidão – agradou o fato de que essas
meninas não fossem super-estrelas, badaladas e mimadas, encharcadas de
dinheiro e tédio, mal suportando os próprios egos. Não. Parecem moças
comuns, que encontramos todos os dias no Viaduto do Chá, só que jogando bola
com imensa categoria.
Vão me dizer que tudo é questão de tempo. Logo elas farão parte integral da
sociedade do espetáculo e será para o bem delas próprias e de todos nós. Nós
mesmos que estamos agora pedindo que elas sejam atendidas em suas
reivindicações, que tenham condições de praticar esse esporte por aqui,
ganhar mais, etc. Enfim, que sejam tratadas profissionalmente. Esse ingresso
justíssimo num regime profissional e rentável talvez signifique o princípio
do fim disso tudo que mais nos encantou: um certo amadorismo, o ar de que
estão jogando por puro prazer e que o jogo é aquilo mesmo, uma brincadeira
levada muito a sério.
Tudo isso pode desaparecer, sem dúvida, e talvez seja o que os conformistas
chamam de “ordem natural das coisas”. Mas é como a primavera, uma bela
estação enquanto dura. Nós, românticos e nostálgicos, não esqueceremos.

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