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Conselhos a um time de crianças

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2011 | 23h16

O Santos tem as melhores qualidades e os piores defeitos de um time de crianças. As qualidades todos já aprendemos a conhecer nesses últimos meses: a criatividade, o ímpeto ofensivo, o futebol alegre e debochado, a alegria em campo, a eficácia traduzida em gols. Os defeitos, estamos reparando aos poucos e tem sido vistos nos clássicos. Empatou no final com a Portuguesa, depois de um jogo muito duro. Contra o Corinthians, teve o adversário à mercê e quase tomou o empate. Idem contra o Palmeiras, com a diferença de que, neste caso, de fato tomou a virada. No domingo, com tudo para liquidar o jogo contra o São Paulo por placar amplo, permitiu o empate e quase levou a virada que complicaria sua vida nas semifinais. Mas achou um gol no final e venceu.
Pois, bem, o Santos que, pela campanha, é o melhor time do futebol paulista (não entro nessa de dizer “do futebol brasileiro” pois me faltam termos de comparação com os outros Estados) já teria vencido há muito tempo pelo mais justo dos sistemas, que é o de pontos corridos. Mas, nessa fase de mata-mata, está dando muita sopa ao azar. Pode se dar mal, embora continue com vento e, parece, sorte a favor.
Mas há algo a ser visto nesse time que encanta a todos. Uma espécie de falha no cristal, que precisa ser detectada e corrigida o mais rápido possível pelo competente Dorival Jr. Por que esse time consegue vantagens substanciais e não mostra a mesma capacidade para segurá-las? Claro, em parte isso se explica por mérito dos adversários. O Santos não joga contra o vento. E talvez haja alguma coisa nesse time que reaviva o espírito de competição dos oponentes e faça com que deem o melhor de si mesmos. Aconteceu com seus rivais paulistas. Em particular com o Palmeiras, que contra o Santos fez sua melhor partida e, domingo, com o São Paulo, que jogou seu melhor futebol deste ano no segundo tempo do jogo.
Mérito dos adversários, certo, mas também queda de rendimento do time do Santos em momentos cruciais das partidas. Por quê? Incapacidade de manter a marcação no campo do adversário? Pode ser, o jeito que o Santos marca é mesmo desgastante. Mas por que, nesses momentos, perde também capacidade de contra-atacar de maneira rápida? São fatos a serem levados em conta e estudados pela comissão técnica. Mas tenho a impressão de que existem outros fatores em jogo, estes de ordem psicológica. Uma certa suficiência, que provoca acomodação depois da vantagem conquistada e, ao mesmo tempo, irrita e portanto desperta adversários que, em outras circunstâncias, talvez já estivessem nocauteados. Parece que está também em ação a típica síndrome do “podemos decidir quando quisermos”, comum a muitos times bons e agravada neste caso pela imaturidade do elenco. Talvez haja certo fastio prematuro. Como se os meninos se cansassem do brinquedo antes do término do recreio. Dorival precisa explicar-lhes que o jogo dura 90 minutos. Às vezes se vê uma certa falta de seriedade, que pode ser desmentida por todos, mas fica muito evidente em certas situações. Talvez possa ser detectada também uma falta de tolerância à frustração: assim que o oponente reage, as coisas ficam mais difíceis e então o time reage mal. Criança não gosta de ser contrariada. Falta um líder em campo para os momentos complicados – porque liderar quando tudo vai bem é mole…
Toda essa conversa poderia ser resumida assim: falta maturidade. Nelson Rodrigues tinha uma recomendação aos moços: “Envelheçam, envelheçam”. Queria dizer que a juventude tem muitas vantagens, mas não a malícia que só a experiência traz. Como o jovem Santos é a melhor coisa que aconteceu ao futebol brasileiro este ano, eu faria um ajuste ao conselho do mestre. Envelheçam. Mas só um pouquinho.

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