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Convite à humildade

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 14h41

24/4/2007

Os resultados das semifinais do Campeonato Paulista soam como um convite
geral à humildade. Primeiro, para os assim chamados clubes grandes que, na
prática, não se mostraram tão grandes assim: o São Paulo, eliminado, e o
Santos, classificado, mas na bacia das almas, com o regulamento na mão, como
se costuma dizer nessas horas.
Segundo, esses últimos jogos deveriam servir como meditação a todos nós que
escrevemos sobre futebol. Não conseguimos prever nada, deveríamos admitir
logo de saída. Podemos fazer discursos mais ou menos articulados e coerentes
sobre vários aspectos desse misterioso jogo da bola, mas quando se trata de
antecipar resultados, andamos nas trevas e nossas opiniões não passam de
meros palpites.
Não conheço ninguém, mas ninguém mesmo, que tenha levado a sério a hipótese
de que o São Caetano iria tirar o São Paulo e o Bragantino ofereceria tanta
resistência ao Santos. Como é possível que aconteçam resultados tão
extraordinários sem que nos espantemos com isso?
E, atenção, não foi apenas um jogo, no qual, como também se costuma dizer,
tudo pode acontecer. Não. Foram dois jogos, ida e volta, 180 minutos para
que os clubes com maior investimento, melhor elenco, mais títulos, mais
camisa, técnicos mais badalados, melhor estrutura, mais tudo, pudessem impor
seu favoritismo. Nada disso aconteceu, apesar de alguns grão-senhores da
crônica terem pontificado que, em dois jogos, o time grande acaba por se
impor, sem qualquer margem para erro.
Como se costuma dizer também, e para não perder a viagem já que esta coluna
se dedica aos clichês do esporte, talvez seja hora de “mudar nossos
conceitos”. O melhor time do campeonato, pelos pontos corridos, é o Santos.
Ora, nos dois jogos das semifinais, o Bragantino jogou consistentemente
melhor e esteve mais perto da vitória em ambos. O segundo melhor é o São
Paulo, que por pouco não perdeu o primeiro confronto e saiu goleado no
segundo jogo contra o São Caetano.
Andamos nos acostumando a tratar São Paulo e Santos como duas fortalezas do
futebol brasileiro, e nada disso é fruto de delírio. Basta levar em conta os
resultados dos dois nos últimos meses: ambos têm aproveitamento invejável.
Por que então sofrem tanto no confronto contra os pequenos. Não sei. Talvez
porque não haja diferença tão grande assim como pensamos entre uns e outros,
pelo menos no confronto direto por decisão de título. A esta altura, quem se
arriscaria a cravar que o Santos é favorito diante do São Caetano,
justamente o time que melhor jogou as semifinais?
Pensando sobre esses jogos, lembrei-me do grande escritor Pedro Nava, de
quem sou devoto. Nava escreveu maravilhosos livros de memórias e, quando lhe
perguntaram para que lhe servia essa experiência, respondeu: “É como um
carro que tivesse os faróis na parte traseira: ilumina tudo que ficou para
trás, mas a estrada à frente continua no breu”. Assim é no futebol. Depois
do jogo, temos tantas explicações. Mas, antes…
O SENTIDO DO GOL
Fizeram pesquisa pela internet para saber qual dos gols era mais bonito, o
de Maradona ou o do Messi. Na Espanha e no Brasil deu Messi; na Argentina,
Maradona. Explica-se. Messi, jogando pelo Barcelona marcou contra um
adversário chamado Getafe. O de Maradona aconteceu numa Copa do Mundo,
contra a Inglaterra, poucos anos depois da Guerra das Malvinas. Nos pés de
Maradona, a guerra suja naquelas ilhotas ressoou na guerra simbólica da
Copa. Cada gol é ele e mais a sua circunstância. Os argentinos sabem disso.
Quem se arrisca a cravar que o Santos é favorito contra o São Caetano?

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