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Copa do Mundo 2018: Neymar e a transgressão

O futebol é uma espécie de metáfora da sociedade. Reflete, como um espelho, e numa escala simplificada (portanto mais nítida) quem somos e o que sentimos na vida em sociedade. Por isso nos representa tão bem. E nos apaixona.

Luiz Zanin Oricchio

27 Junho 2018 | 10h42

 

Vamos  dizer abruptamente: a transgressão NÃO vale. A lei deve ser cumprida e ser igual para todos. No campo e fora dele.

Mas – e sempre existe um “mas” – será que é assim mesmo? Será que você acredita, leitor, que a lei vale para todos? Que é aplicada do mesmo jeito, seja você rico ou pobre, de direita, de centro ou de esquerda? Ou a lei teria sua zona de sombra, dentro da qual cabem interpretações, chicanas, saídas pela tangente, malabarismos jurídicos?

Bem, se vivemos no mundo adulto sabemos que é assim que funciona. Hoje mesmo o noticiário político compara o Supremo Tribunal Federal a um transatlântico desgovernado, que navega em círculos dadas as interpretações da lei divergentes dos seus membros quando aplicadas a “amigos”, “inimigos” ou “indiferentes”.

O futebol é uma espécie de metáfora da sociedade. Reflete, como um espelho, e numa escala simplificada (portanto mais nítida), quem somos e o que sentimos na vida em sociedade. Por isso nos representa tão bem. E nos apaixona.

As simulações de Neymar andaram na berlinda. Não se toleram mais atitudes desse tipo e elas prejudicam o jogo, o time e a todos nós. São uma afronta. Isso virou consenso no país da polarização de ideias.

Será mesmo?

Lembro de maneira nítida quando se aceitavam transgressões às leis do futebol. Não apenas se aceitavam, mas eram elogiadas quando “bem feitas”. Isto é, quando escapavam à observação do juiz.

O maior de todos os tempos – Pelé, claro – era um especialista. Quando ainda bem jovem entendeu que não teria muito futuro pela frente diante de zagueiros botinudos, e que agiam sob beneplácito dos árbitros, passou a revidar. Só que o fazia “com arte”. Atingia duro, sem ser percebido. Passou a ser respeitado. E, dessa forma, conseguiu espaço para exibir toda a sua arte.

Pelé também podia ser um simulador. Lembro de quando enganchou seu braço no braço de um goleiro e foi ao chão. O juiz deu pênalti a favor do Santos.

Lembro de outro pênalti cavado, e este de maneira ainda mais sutil. A bola estava dominada por um zagueiro situado atrás do goleiro adversário. Pelé, de repente, avançou em direção à linha de fundo, como se o adversário tivesse perdido o controle da bola. Apavorado, o goleiro o derrubou, sem olhar para o que estava acontecendo (ou seja: nada. A bola continuava sob domínio do zagueiro). Pênalti assinalado. O craque transgredia – neste caso, dentro da lei. Mas, imagine a gritaria se esse lance se desse hoje, e o que não se falaria sobre sua falta de ética.

Passemos ao segundo melhor do mundo, Diego Armando Maradona. Na Copa de 1986, Dom Diego acabou com a Inglaterra com dois gols. Um deles é considerado o mais bonito da história das Copas. Ele pegou a bola em seu campo e foi enfileirando adversários até chegar à área, driblar o goleiro e enfiá-la na rede. Gênio.

O outro foi o gol conhecido até hoje como o da “mano de Diós”. Bola cruzada na área, o baixinho Maradona sobe e divide com o goleiro. Marca. De cabeça? Sim, foi o que viu o juiz e todos os que assistiam ao jogo. Só que foi com a mão. Não aquela mão vulgar, aquele braço que se destaca do corpo e corta a bola, como num jogo de vôlei. Procure no YouTube: Dieguito esconde a mão atrás da cabeça de modo que precisamos rever o lance várias vezes até percebermos que o gol foi feito com a mão. Quando questionaram Maradona, ele saiu-se com esta: se foi mão, foi “la mano de Diós”. Cínico, ainda por cima?

Não é o que acham seus compatriotas ou seus seguidores mundo afora. Já fizeram pesquisas na Argentina e os hermanos acham o gol de mão ainda mais genial do que aquele totalmente legal, em que ele dribla vários ingleses até enfiar a bola no gol.

Por quê? Por muitas razões. Uma delas, suponho, porque existe esse gozo, hoje meio inconfessável, em enganar o adversário. Segundo, porque esse adversário era a Inglaterra, que pouco antes havia massacrado a Argentina numa guerra real e injusta – a das Malvinas.

A ferida estava aberta, era recente, e o gol da “mano de Diós” era como uma desforra simbólica contra a grande potência européia que matara muitos argentinos num combate desigual.

De modo que, antes de julgar Neymar e nos considerarmos a todos anjos de pureza, convém meditar sobre a complexidade da vida e os ambíguos sentimentos humanos.

Expressos, como de hábito, nesse grande teatro que é um campo de futebol.