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Copa do Mundo 2018: o Brasil não é para principiantes

Sem jogos, uma pausa para reflexão, entre elas, esta: não toleramos que estrangeiros baixem o pau em Neymar. Só nós podemos fazê-lo

Luiz Zanin Oricchio

04 Julho 2018 | 10h43

 

Não dá uma certa agonia? Dois dias sem um joguinho sequer…

No entanto, a pausa é bem-vinda. Serve para refletir sobre o que vimos até agora.

Primeira coisa: sacudida a árvore, ficaram os frutos de sempre, ou seja, europeus e  sul-americanos. Os que sempre disputam os títulos.

Por pouco não tivemos um “intruso” asiático, o Japão, que acabou caindo no último lance do jogo contra a Bélgica.

Ficaram, então, dois sul-americanos: Uruguai e Brasil. E seis europeus: França, Bélgica, Suécia, Inglaterra, Rússia e Croácia. Pelo cruzamento das chaves, já é certo que haverá pelo menos um europeu na partida final.

Outro tema: até agora não surgiu o grande time da Copa. Aquele que encanta, o bicho-papão, o favorito absoluto, o que traz inovações irresistíveis. Aquele que, quando cai, configura quase uma aberração.

Provavelmente não existe tal time. A não ser que algum, daqui para a frente, melhore tanto seu nível que passe a ser considerado um time histórico, caso vença o Mundial.

Há times que se tornaram históricos e venceram. Outros ficaram pelo caminho. Exemplos do primeiro caso: as seleções brasileiras de 1958 e 1970, ambas inesquecíveis e campeãs. Do segundo, a Hungria de 1954, a Holanda de 1974, o Brasil de 1982. Encantaram o mundo, perderam a Copa.  

Nesse ambiente relativamente nivelado, Tite montou um time competitivo. O Brasil até agora só tomou um gol. Foi pouco ameaçado. Depois de um começo decepcionante (empate contra a Suíça) vem se mostrando cada vez mais consistente.

Se você pensar, é o esquema Tite que fez sucesso no Corinthians, com a diferença de que, agora, ele conta com uma gama muito mais variada de jogadores de qualidade. São times sólidos no sistema defensivo (que envolvem a equipe inteira) e chegam à vitória pois não tomam gols e o ataque sempre dá jeito de fazer pelo menos um. Ainda mais um ataque que tem Willian, Phillipe Coutinho, Gabriel Jesus e Neymar. Algo há de surgir.

Já o chamaram de retranqueiro. É injusto. Ele mesmo prefere a palavra “equilíbrio”. A verdade é que a seleção não dá “show”, mas vem jogando bem, de maneira consistente. Daí ser uma das favoritas. Mas antes de ser apontada como tal, precisa passar pela Bélgica que, em certo sentido, joga um futebol mais ofensivo que o do Brasil, mas, ao contrário deste, não tem uma defesa assim tão segura.

Uma palavra final sobre Neymar. Com suas supostas “simulações”, tornou-se o bode expiatório ideal da Copa da Rússia. Chovem críticas sobre ele, vindas do Brasil e de outros países. Foi criticado até por Maradona, que marcou um gol de mão contra a Inglaterra e até hoje se orgulha do feito.

Curioso: assisti ontem a Inglaterra x Colômbia e vi lances de simulação o tempo todo, de lado a lado: agarrões, puxões, quedas que não eram faltas mas tentavam ludibriar o árbitro, prática de “cera” e tudo mais. Não se pode dizer que tenha sido um jogo disputado nas mais estritas regras do fairplay. E, no entanto, não ouvi ou li qualquer crítica. Como se certa malandragem fizesse parte do futebol e tivesse de ser tolerada. Só não é aceita quando se trata de Neymar.

A perseguição externa evoca a necessidade humana de eleger bodes expiatórios e descarregar sobre ele culpas coletivas. Esse traço de psicologia social já deu em tragédias como a do nazismo, por exemplo. Não é coisa bonita de se ver.

Já a perseguição interna a Neymar é um caso peculiar da psicologia nacional. Nelson Rodrigues dizia que o brasileiro é um Narciso às avessas, que adora cuspir na própria imagem. Tom Jobim dizia que o brasileiro não suporta o sucesso de um compatriota e menos ainda se esse êxito é internacional. Isso não se perdoa.

Outro dia vi uma interpretação diferente desse fenômeno nacional, vinda do crítico literário Sérgio Rodrigues (boleiro das letras, escreveu o ótimo romance O Drible). Diz ele que se trata de uma espécie de doença auto-imune. Como se sabe, nesse tipo de enfermidade o sistema imunológico volta-se contra o próprio organismo. Literalmente, o corpo se auto-devora. Assim somos. Quando algum de nós sobressai, acionamos os anticorpos e tentamos eliminá-lo.

Depois da ótima atuação de Neymar contra o México, senti certa reversão nas redes sociais, essa faceta contemporânea da opinião pública. Muitos internautas, ao tomar conhecimento das críticas internacionais a Neymar, se revoltaram. Mas não o defenderam de maneira incondicional e sim no típico estilo brasileiro: “nós podemos criticá-lo, mas vocês, estrangeiros, não têm esse direito”.

Desse modo, nos reservamos o privilégio de baixar o pau em Neymar, mas nos revoltamos quando os gringos o fazem, e pelos mesmos motivos.

“O Brasil não é para principiantes” é a outra frase genial de Antonio Carlos Jobim.