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Copa do Mundo 2018: caindo na real

Os 7 a 1 não foram o fim do Brasil. Uma eventual, mas possível vitória na Rússia, não significará redenção para o terrível momento que vivemos. Caímos na real.

Luiz Zanin Oricchio

14 Junho 2018 | 18h50

Começou mais uma Copa do Mundo. Esta, ao que parece, diferente das outras: as pesquisas indicam que nunca o brasileiro foi tão indiferente a uma Copa, como a esta de 2018. Ainda mais porque existe outra convicção, que parece contraditória, a de que a seleção deste ano é bastante confiável. Se não favorita, pelo menos sólida. Pode chegar ao sexto título.

Onde então as razões para tamanho desencanto? Há quem diga que a situação atual do País não permite qualquer otimismo. De fato – e não estou aqui para enumerar as razões para tamanho e justificado desalento. Todos sabem disso, embora também interpretem este outro jogo – o da política – de maneira diversa da do vizinho.

Mas estávamos melhor do que agora em 1970, quando torcer pelo escrete (como então se dizia) era uma verdadeira religião? O País vivia então uma terrível ditadura militar, embora os governantes ilegítimos dissessem que tudo ia muito bem (o povo ia mal, admitia um dos nossos queridos ministros da Economia da época dos milicos).

De qualquer forma, para boa parte da população, aquilo era um inferno na Terra. Discutia-se até se deveríamos torcer pela seleção porque uma eventual vitória no México serviria aos interesses dos donos do poder de então. Havia certa lógica nisso, mas quem conseguiria torcer contra Pelé, Tostão, Gérson, Jairzinho & Cia?

A vitória foi espetacular e não me lembro de comemoração maior do que aquela. Bom, tenho vagas lembranças da festa de 1958 quando a cidade parecia submergida num carnaval fora de época.  Mas afinal aquele era o nosso primeiro título mundial, o que nos curaria de vez do fatal “complexo de vira-latas” de que falava Nelson Rodrigues.

Vieram depois as outras, sempre sentidas como ocasiões muito especiais. Havia até um “cheiro” de Copa, com a pólvora dos fogos espalhado pela cidade, ruas desertas nas horas dos jogos, grupinhos nos bares e a intensidade da comemoração no momento dos gols. Era fantástico.

Perdemos isso? E em que momento? Dá para recuperar?

Acho que o sentimento foi se atenuando com a mercantilização do futebol. Falo por mim. Comemorei demais as conquistas e chorei as derrotas até a Copa de 1994. Depois foi diminuindo. O fracasso de 1998 foi triste. Talvez mais melancólico do que triste, com aquela história até hoje mal contada do mal-estar do Ronaldo. A sensação de indiferença dos jogadores em relação à camisa amarela ficava patente.

Veio depois a vitória em 2002, com a redenção do próprio Ronaldo. Foi legal, mas já não senti a mesma coisa. As derrotas de 2006 e 2010 foram chatas, mas duvido que alguém tenha perdido o sono por elas. Eram times medíocres, com jogadores cansados e indiferentes, que nem se esforçavam para disfarçar sua apatia.

O caso de 2014 foi particular. O momento político terrível, os 7 a 1, a hostilidade pairando no ar. Uma Copa que começa com o público mandando a presidente tomar naquele lugar não pode acabar bem. Não se ofende uma senhora impunemente. Papai do céu não gosta. Com tudo isso contra, foi uma Copa legal, do ponto de vista do futebol. Apesar da goleada humilhante da seleção, curti a competição, os bons jogos, os estrangeiros (que às vezes veem as coisas melhor do que nós) se divertindo à beça no nosso país, que eles acharam maravilhoso.

No fundo, acho que mudou mesmo foi o futebol e a nossa relação com ele. Acho que todo torcedor reclama, desde o início dos tempos, da mercantilização do mundo da bola, como se jogador não pudesse ser um profissional como qualquer outro. Acontece que, à medida que o tempo passa, o futebol de fato toma o formato lógico e frio do mundo dos negócios, que, como se sabe, é implacável, racional, e só enxerga objetivo nos lucros.

Como manter, nesse “ambiente de negócios”, a ficção sobre a qual se funda a mística da Copa do Mundo, ou seja, de que um grupo de atletas representa sua pátria na competição? Fica meio difícil, não é? Em especial porque, em países periféricos, como o Brasil, esses jogadores atuam nos grandes clubes do mundo, no futebol globalizado da Europa e, agora, na China e no “mundo árabe” e em toda parte, menos onde nasceu e despontou para o esporte. Jogador vai onde está o dinheiro. Tornam-se estranhos para nós. E vão embora cada vez mais cedo, meninos ainda, como Gabriel Jesus, Vinícius Jr. e agora Rodrygo.

Depositávamos um peso simbólico talvez excessivo sobre o futebol. Queríamos que fosse um fator de afirmação internacional, através do qual nos sentíamos numa espécie de Primeiro Mundo imaginário através da excelência com que praticávamos esse esporte.

Talvez tenhamos percebido esse engodo. Uma vitória no futebol não é um passaporte para uma terra prometida. Para que esta venha um dia, teremos de ralar muito por aqui. E os jogadores não vão fazer esse trabalho por nós. Estão preocupados consigo mesmos. Estamos mais maduros. Mas também mais desencantados. Os 7 a 1 não foram o fim do Brasil. Uma eventual, mas possível vitória na Rússia, não significará redenção para o terrível momento que vivemos. Caímos na real.

Mas nada impede que, quando a bola começar a rolar, tenhamos uma recaída temporária. Veremos.

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