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Copa do Mundo e política *

Luiz Zanin Oricchio

25 de fevereiro de 2014 | 09h56

Quando o Brasil foi indicado para sediar a Copa do Mundo, não se imaginava que o torneio fosse alvo de disputas políticas de tanta intensidade. Porém, não pensar nessa possibilidade talvez tenha sido inocência. Copas, desde seus primórdios, têm servido de arena para lutas ou afirmações políticas. Por que esta aqui, em casa, seria diferente? Ainda mais tendo por palco um país profundamente dividido como é o Brasil de hoje?

A propósito, o colunista José Roberto de Toledo escreveu ontem um excelente texto neste jornal. Em A Copa virou Fla-Flu, Toledo observa, amparado em dados de pesquisa, algo cristalino: quem é a favor de Dilma (leia-se: do PT) é a favor da Copa. Quem é contra Dilma é contra a Copa. Há nuances, porque nem tudo é preto ou branco nesse jogo. Mas, basicamente, o País se divide entre os que torcem pelo sucesso da Copa e os que desejam ansiosamente o seu fracasso.

Esse panorama já se delineava durante a Copa das Confederações, mas não de forma tão nítida quanto agora. Vivíamos um certo sentimento de pureza diante das manifestações, com seus slogans românticos como "o gigante acordou", "saímos do Facebook", etc. Desejavam mudanças. Depois, como também era previsível para um bom observador, vieram a apropriação das insatisfações e a violência pura e simples. Hoje, cada qual puxa a brasa para sua sardinha e até mesmo os black blocs recebem acolhida ambígua, pois podem ser companhia incômoda, mas também perturbam governos, e nos três níveis do poder. Os manifestantes podem não saber o que querem, mas quem se aproveita deles certamente sabe, e sabe muito bem. Essas forças estarão em ação até o início da Copa, no dia 12 de junho, e provavelmente continuarão até o seu encerramento, um mês depois, estendendo-se até a eleição de outubro. Será um ano interessante, ainda que árduo de suportar.

O que temos como consolo para este ano que se anunciava divertido, e agora tornou-se fonte de tensão, é que as Copas do Mundo de futebol muitas outras vezes prestaram-se a afirmações políticas diferentes.

Basta lembrar da Copa de 1938, disputada na França, quando a divisa de Mussolini para a seleção italiana era simplesmente "Vencer ou Morrer" (Vincere o Morire, clamava o Duce). A Itália fascista enfrentava divisões internas, estava a ponto de se envolver na aventura de uma guerra mundial e Mussolini via no futebol a possibilidade de união e afirmação nacionalista. A Itália, de fato, venceu na terra dos seus rivais e um constrangido Giuseppe Meazza ergueu o braço em saudação fascista diante do presidente francês para receber a taça.

O Brasil de 1950 não estava envolvido em guerras, mas se aproveitava da Copa para se afirmar como país importante perante o mundo. A vitória da seleção seria o triunfo da nação, o que tornou a derrota ainda mais amarga, e duradoura. No dia 16 de julho de 1950, não foi apenas um time que perdeu para outro, mas um projeto de país que naufragou e seria resgatado apenas em 1958, na Suécia.

Entre as Copas politizadas, não podemos esquecer a de 1970, quando o regime militar tentou usar a seleção para simbolizar o "Brasil Grande" e seu projeto autoritário de modernização conservadora. A tal ponto tentou-se criar a identificação entre regime e time que a oposição ensaiou torcer contra aquele esquadrão formado por Tostão, Pelé, Rivellino, Jairzinho, Gérson e etc. Em vão, claro, pois o time revelou-se incomensuravelmente maior do que o mesquinho cálculo político engendrado pelo regime.

Não se pode esquecer a Copa de 1978, realizada numa Argentina atormentada por uma das mais violentas ditaduras do continente, com seu general-presidente assistindo aos jogos e capitalizando as vitórias da equipe. A seleção argentina venceu, mas nem por isso o regime firmou-se. Caiu com a Guerra das Malvinas e o general que assistia aos jogos terminou seus dias na prisão.

Tenta-se sempre politizar o futebol, mas a eficácia dessa estratégia parece discutível. A História trilha caminhos mais complexos, embora passe, ocasionalmente, pelo tapete verde do campo de jogo.

* Coluna publicada na seção de Esportes do Estadão

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