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Copa no Brasil: o que é inegociável

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 21h08

30/10/2007

Hoje o Brasil deve ser indicado como país-sede da Copa de 2014. E quem não
fica feliz com isso? Afinal, a maioria da população nem era nascida quando a
Copa foi realizada aqui, pela primeira e última vez, em 1950. Ah, a Copa
daquele fracasso emblemático, a mãe de todas as derrotas, imortalizada por
textos de Mario Filho, Nelson Rodrigues, José Lins do Rego e tantos outros.
A nossa anti-epopéia, a origem profunda do complexo de vira-latas, a nossa
Hiroshima, a tragédia “pior que Canudos”. A volta da Copa, 64 anos depois,
seria uma possibilidade de reescrever essa história mítica, como em ficção
tentou fazer Paulo Perdigão, num conto filmado por Jorge Furtado, e que
resgata um dos “vilões” daquela final – o goleiro Barbosa.
Mas, claro, dirão, tudo isso é passado remoto, a derrota e o complexo já
foram resgatados há muito tempo e o Brasil hoje é pentacampeão do mundo, uma
potência futebolística. Verdade. Mas falta esse gostinho, que deve ser todo
especial, de ser campeão em sua própria casa. Podemos até imaginar como
seria esse mês todo especial de 2014. Se já não fazemos grande coisa durante
uma Copa do Mundo, em qualquer lugar que ela se realize, o que dizer de uma
Copa que acontece aqui mesmo, em nosso quintal? Mais do que nunca o País irá
parar. Será um gigantesco parêntese na vida nacional. Nada, nenhum assunto,
fora o futebol, será levado em conta. Se essa é a perspectiva, um interesse
profundo e uma comoção nacional em caso de vitória, quem pode ser contra uma
Copa no Brasil?
Eu não. Mesmo porque existem os argumentos econômicos. Todos os países que
organizam Copas têm de fazer investimentos vultosos, mas lucram com eles. A
infra-estrutura construída permanece como melhoramento permanente. É assim
em toda parte, por que aqui não seria?
Meu entusiasmo diminui quando leio uma matéria excelente como a de Jamil
Chade e Leonencio Nossa, publicada ontem neste mesmo caderno. Sob o título
“Fifa pede a governadores que evitem problemas com a CBF”, o texto mostra
que a entidade pede empenho para impedir “hostilidades políticas” e
“exposições negativas” na Câmara e no Senado. Traduzindo: se o Brasil quer
mesmo sediar a Copa do Mundo, precisa se comprometer a não fazer marola.
Como por exemplo uma CPI para apurar lavagem de dinheiro em clubes ou mesmo
na entidade que, supostamente, dirige o futebol no Brasil. Ou seja, para se
garantir a Copa no Brasil está se armando um gigantesco “acordo de
cavalheiros”.
Não que eu tenha em grande conta essas CPIs ou ache que estas tragam muita
coisa à luz, a não ser a vaidade e os interesses políticos dos seus
protagonistas. Mas essa não deve ser uma moeda de troca com a Fifa. A
soberania política do País é inegociável e não pode ser mercadejada em cima
do balcão.
Fala-se também em perigo de corrupção, porque as obras deverão ser
financiadas parte pela iniciativa privada, parte pelo dinheiro público. Ok,
somos todos contra a corrupção, e ela existe desde a época em que o
imperador Vespasiano taxou os mictórios de Roma e, ao que parece, desviou o
dinheiro. Então, se formos ter medo da corrupção, o melhor é não fazer nada.
Corrupção se fiscaliza, e se pune, quando comprovada.
Para resumir, o preço que não se pode pagar por uma Copa do Mundo é
abdicarmos do espírito crítico. Esse, ou é inegociável ou não existe.
Não se pode colocar a soberania política como mercadoria em cima do balcão

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