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Criatividade também fora de campo

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2011 | 14h04

O Santos já mostrou que é possível fazer diferente dos outros e ter sucesso. Digo isso independentemente do desfecho do Campeonato Paulista. Pode acontecer uma zebra e ganhar o Santo André que eu não mudo de opinião. O jogo do Santos é bonito, ofensivo e eficaz. E isso é tudo o que precisamos do futebol; os resultados e títulos são conseqüência do bom futebol e não premissas. Em termos de conquistas, se seguir seu caminho, o Santos será um dos favoritos, talvez o principal, do Campeonato Brasileiro que, por ser disputado por pontos corridos, é o mais justo. Pode, por que não?, classificar-se para a Libertadores de 2011 e disputá-la com chance de vencer. Quer dizer: é um time em condições de fazer história.
Mas, para que possa fazer história, será preciso que os dirigentes sejam tão inventivos quanto são os meninos dentro de campo. Qual é a regra quando se tem uma equipe como essa no futebol brasileiro? Desmanchá-la o mais rápido possível para lucrar com as transferências. O desafio dos dirigentes é desacelerar o processo e ir contra a “lógica” vigente.
É fácil? Claro que não é. Se fosse, todos fariam. É preciso enfrentar muitas forças contrárias. Em primeiro lugar, os próprios jogadores e as famílias que deles vivem, que querem enriquecer cada vez mais e de modo rápido. Segundo, há os “empresários”, que salivam a cada gol de Neymar e a cada passe de Ganso. Terceiro, há as “parceiras”, que têm fatias dos jogadores e não estão nos clubes por amor à arte. Querem o seu. Todos os interessados querem o seu. Apenas o pobre do torcedor deseja apenas ver seu time jogando bom futebol e ganhando títulos. Esse descompasso de expectativas é o “x” da questão do futebol atual. Pelo menos do futebol dos continentes periféricos (do ponto de vista econômico), como América Latina e África, ambas habituadas a vender seus talentos para a Europa e mercados secundários.
Há todo um contexto internacional que favorece esse êxodo e os próprios países exportadores adotam legislações para facilitá-lo, como é o caso óbvio (só não vê quem não quer) da nossa Lei Pelé. Ela é parte integrante do business e, claro, muita gente, sobretudo intermediários, enriquecendo à loucura com o mercado dos jogadores de futebol, têm interesse em manter tudo como está. Daí porque é tão difícil opor-se a essa política de terra arrasada: qualquer reação contraria muitos e poderosos interesses econômicos. Em todo caso, se quisermos ver por mais tempo o futebol bonito do Santos, e estimular outros times a seguir o mesmo caminho, precisamos desatar de alguma maneira esse nó. É a única maneira de trazer de volta ao futebol brasileiro o alto nível que ele um dia já teve. É a luta do futebol contra a ganância, de placar ainda em aberto. Até agora, a ganância está ganhando. De goleada.
A nova presidência do Santos tem mostrado um discurso moderno e arrojado. Ok, palavras são importantes, mas não são tudo. Valem as atitudes. Vamos ver como se comporta no futuro. Como o time, pode botar adversários para dançar e fazer história. Ou pode se conformar com a mesmice.
Na seleção?
Não sei se essa campanha de mídia por Ganso e Neymar na seleção terá efeito sobre Dunga e o comando da CBF. Outras não surtiram efeito, como a que mobilizou a opinião pública em favor de Romário em 2002. Felipão fincou pé e ganhou a Copa. Às vezes os teimosos são recompensados. Mas a dupla do Santos tem sua esperança no problemático estado atlético de Kaká e no comportamento oscilante de Adriano. Não é impossível que, em função disso, Dunga repense seu conceito de grupo fechado. Às vezes, a necessidade é a mãe da invenção. Você pega um técnico acomodado e, pelas circunstâncias, ele é obrigado a rever conceitos. É uma esperança para termos uma seleção menos previsível do que a atual. A seleção brasileira não tem apenas a obrigação de vencer. Tem a obrigação de defender uma concepção de futebol, aqui inventado e aperfeiçoado. Ela é depositária de uma tradição e toda tradição precisa seguir sua linha evolutiva e não ficar parada no tempo como num museu.

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