As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Crônica de uma vitória anunciada

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 14h15

21/11/2206

Acho que a vitória do São Paulo no Campeonato Brasileiro não surpreendeu nem
a são-paulinos nem a torcedores de outros clubes. Muito menos a
comentaristas, repórteres de TV, editores de esportes, focas e escribas em
geral. Ninguém foi surpreendido, pois a ascensão do tricolor rumo ao título
se dava com a inevitabilidade das marés ou das fases da Lua. Só perderia o
título por uma confluência de acidentes rara. O que não aconteceu, e então
deu o que se esperava.
Essa vitória anunciada, que se desenhou já há algumas rodadas, trouxe de
volta algumas vozes agourentas contra o sistema de pontos corridos. “O
campeonato fica sem graça”, tenho ouvido pelas esquinas, lido em e-mails e
blogs. Sei que também seria do interesse da Globo a volta de um sistema com
jogos finais, de grande audiência, e portanto mais lucrativos.
Sei também que, de agora até o final, o campeonato vai se arrastar. Claro,
existem ainda algumas vagas a serem decididas: as da Libertadores, as do
descenso e as da Sul-Americana. Mas, convenhamos, também estas já estão
quase fechadas. Apesar de Palmeiras e Fluminense ainda estarem ameaçados,
parece que a Ponte Preta fechou questão em torno da última “vaga”
remanescente para a 2ª divisão.
Resta o consolo nada desprezível da Libertadores, com Santos, Vasco e Paraná
no páreo, São Paulo, Inter e Grêmio já garantidos, além do Flamengo, que
venceu a Copa do Brasil. Assim, deveríamos esperar jogos acirrados dos times
que têm vagas pendentes. Não foi o que se viu em Cruzeiro x Santos, partida
sem nenhuma criatividade ou mesmo entusiasmo. Isso para não falar de
Corinthians contra o rebaixável Fluminense, jogo ruim de doer, aliás um dos
muitos de um campeonato que não irá se notabilizar pela qualidade técnica.
Sim, o sistema de pontos corridos irá sempre ser chamado de monótono, pelo
menos por aqueles que ficaram para trás. Mas pergunte hoje a um torcedor do
São Paulo para ver se ele não acha essa a fórmula a correta. O campeonato
por pontos corridos beneficia a constância, o planejamento, a “estrutura”,
essa palavrinha mágica do mundo do futebol. Já qualquer sistema com partidas
finais é mais favorável à surpresa, à situação do tudo ou nada, ao lance
único e decisivo (que pode também ser o erro de um juiz) e que decide, por
ele só, entre o céu e o inferno.
As duas fórmulas e também os sistemas mistos (que, por exemplo, selecionam
dois ou quatro finalistas por pontos corridos e depois os colocam entre si
no mata-mata) têm seus méritos e seus problemas. Nenhuma das alternativas é
perfeita. O de pontos corridos é o sistema do poupador responsável, do bom
burguês que compreende desde cedo o valor dos três pontinhos de cada jogo. O
mata-mata fala mais de perto ao jogador romântico, de cassino, que arrisca
toda a fortuna num único lance.
Como entendo que o futebol brasileiro, neste momento, precisa mais de
planejamento que de aventura, acho interessante manter o sistema de pontos
corridos, que premia a racionalidade sobre o romantismo. Está na cara que o
São Paulo é o mais pragmático dos clubes brasileiros e por isso venceu. Até
agora, é o que melhor assimilou as mudanças no capitalismo da bola e
trabalha dentro dessa realidade. O perigo é que se transforme em modelo
único, a ser seguido de maneira acrítica. Mas existem muitas maneiras de ser
competente e não apenas uma.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: