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Crônica do Primeiro Mundo

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2011 | 13h15

VENEZA – Como estou fora do País, recebo com surpresa e-mail de familiares me avisando dos resultados da rodada. Como? O “retranqueiro” São Paulo enfiou 6 a 0 no Paraná? O Palmeiras, que estava se aprumando, tomou de 5 a 0 do Cruzeiro? O Santos, com um time que eu havia chamado de “sólido” pouco tempo atrás, apanhou de 2 a 0 de um despedaçado Corinthians em crise eterna? Vocês não querem que eu volte?, como perguntava um personagem antigo do Jô Soares.
Como não vi os jogos, suponho que cada um deles deva ter a sua lógica interna, como costumamos escrever depois que o resultado foi definido. Agora, que não eram placares esperados, lá isso não se pode negar. Quer dizer que o São Paulo, que já tinha uma defesa intransponível, deu agora para golear? Desse jeito, não perde o título de jeito nenhum. O Cruzeiro surge como a segunda força do campeonato, pois de fato substituiu o Botafogo como o “time que joga bonito” e vence, à brasileira, digamos. Mas precisava enfiar cinco no Verdão? E o Corinthians, achou de se reabilitar logo em cima do Santos, que estava na boca do G-4 e já havia se livrado da ameaça de desmanche, com o fechamento da janela européia de transferências? Estranho esporte esse, que sempre nos reserva surpresas, mesmo que já estejamos acostumados a elas, não por força da sabedoria mas da experiência acumulada pelos anos.
Por aqui o calcio apenas esboça seus primeiros movimentos, ainda, como todo o futebol europeu, meio ressabiado com a morte do atacante Puerta, do Sevilha. Imagino que deve ter repercutido por aí também, porque foi uma tragédia bem parecida com aquela do Serginho, do São Caetano.
O caso ganhou grandes manchetes e provocou comoção. E também troca de acusações, como de praxe. Michel Platini, presidente da Uefa, e Joseph Blatter, da Fifa, responsabilizaram a cobiça dos clubes, o excesso de jogos. Mas os clubes – e jornalistas – lembraram aos dirigentes que as entidades também têm a sua parcela de culpa no funcionamento frenético dessa máquina de fazer dinheiro em que se converteu o futebol. Lembraram, por exemplo, que foi a própria Fifa que transformou a Copa Intercontinental em torneio, quando antes era decidida em jogo único.
Enfim, essa máquina faz ídolos e os mata. Ou devora, como está acontecendo com Adriano, o ex-Imperador da Internazionale de Milão, em permanente inferno astral. Adriano não teve seu nome relacionado entre os 25 que disputarão a Champions League pela Inter e deu entrevistas dizendo-se magoado.
Mas a imprensa esportiva não deixou barato. Lembrou que a vida do Imperador se transformou em farra constante, regada a álcool, amizades difíceis e garotas fáceis. Dão até cifras. Em sua devoção a Baco, Adriano gastaria cerca de 40 mil euros por semana na noite de Milão. Cento e sessenta mil ao mês, uma extravagância até para quem tem contrato de 5,5 milhões ao ano até 2010. Fala-se também de festas até a madrugada na villa mantida pelo jogador perto de Milão. Não é a imprensa de escândalo que traz tudo isso à tona. As notícias, com chamada e início na primeira página, estão em jornais sérios como Corriere della Sera, La Stampa e La Repubblica.
Num deles, a transcrição de um desabafo de Adriano à sua mãe: “Eu era mais feliz quando não tinha nada de meu”. Confesso que me deu um nó na garganta. Torço para que ele dê a volta por cima e não deixe que a fama, essa deusa caprichosa, o devore. Forza, Imperatore.

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