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Cumplicidade entre o fotógrafo e os boleiros

Luiz Zanin Oricchio

14 de fevereiro de 2012 | 09h33

Amigos, aqui três perguntas ao fotógrafo Gilberto Perin, autor da série Vestiário, com os jogadores do Brasil de Pelotas.

 

1) Por que você procurou retratar o universo do futebol por esse ângulo pouco usual, o dos vestiários?

Eu queria resgatar as emoções que os jogadores de futebol sentem no vestiário, atualmente um espaço inatingível para torcedores e Imprensa.  A ideia surgiu das tardes de domingos da minha infância e adolescência, com o som do rádio onde repórteres transmitiam o som dos vestiários com a emoção dos jogadores após vitórias e derrotas. Nos jornais dos dias seguintes, as fotografias revelavam – além das jogadas dentro do campo – o lado humano, feliz, tenso ou vitorioso dos atletas no local mais íntimo, o vestiário. Mas não me interessava só o registro do fato, eu queria colocar o meu olhar sobre o tema, reler memórias das tardes de domingo repletas de futebol.

2) Como conseguiu acesso a esse espaço de intimidade dos atletas?

Essa foi a parte mais difícil. Tentei conversar com alguns clubes, o meu projeto era recebido com estranhamento e desconfiança.

Não é fácil conseguir um clube que libere seu vestiário para um projeto como esse. Depois de várias tentativas, através do escritor Aldyr Garcia Schlee (coincidentemente também o criador do uniforme da Seleção Brasileira em 1953) consegui que o G.E.Brasil, da cidade de Pelotas (RS) aceitasse o meu projeto, através do então presidente Helder Lopes.

(Uma feliz coincidência: a equipe do Brasil tem o nome do país, com jogadores procedentes de 10 estados, numa mistura de sotaques e cores. Enfim, uma metáfora brasileira: um clube com uma torcida fanática e que está, desde 2009, superando um momento muito difícil (um acidente na estrada onde morreram alguns de seus ídolos) e não consegue, desde então, voltar para a primeira divisão do futebol do Rio Grande do Sul.)

Depois da autorização, fiz um “pacto de invisibilidade” com os atletas. Expliquei o projeto e combinei que eu ficaria “invisível”, sem interferir na rotina deles dentro do vestiário. Eles toparam e isso possibilitou imprimir a minha visão estética e emocional retratando gente que se encontra em momentos-limites de tensão, alegria, disputa; além de revelar um mundo desconhecido (e proibido) para torcedores e para a mídia.

 

3) O que acha do diálogo entre as suas fotos e as outras artes, ou mídias, presentes na exposição?

Eu conhecia a obra de Felipe e pouco do trabalho de Spetto. Mas foi uma ideia criativa apresentada pela curadoria da exposição.  Fizemos um único encontro com um diálogo energético/estético intenso.  De minha parte, senti que não haveria três exposições, mas a arte de um causando estranhamentos e interagindo com as obras dos outros. Esse diálogo entre os três trabalhos, para mim, reflexiona a realidade que está longe dos mega-espetáculos futebolísticos e traduz a visão de cada um de nós sobre um esporte presente no imaginário de todas as classes sociais.

Momentos como esses (da reunião de 3 artes visuais) são raros e quando acontecem, temos que aproveitar e dividir com o público.

 

 

 

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