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De letras e paradinhas

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2011 | 14h06

Amigos, como vocês sabem, não somos nós que escolhemos os assuntos; eles é que nos escolhem. Assim, não tenho muita alternativa senão voltar a alguns detalhes do São Paulo x Santos de domingo. Volto, na verdade, a dois detalhes, os dois gols do Santos. Gols são detalhes, como disse Carlos Alberto Parreira em frase imortal. Mas Deus está nos detalhes, como dizia outro pensador, creio que foi João Guimarães Rosa. E o nosso Roberto Carlos, não o lateral-direito, mas o cantor e compositor, meditava, desde sua natal Cachoeiro de Itapemirim, nos detalhes tão pequenos de nós dois.
Enfim, os dois gols, esses dois detalhes que decidiram o clássico, foram duas pinturas,duas pequenas jóias. O primeiro, como vocês sabem, foi o pênalti, com paradinha, cobrado por Neymar. Um pênalti pode ser uma pequena obra de arte? Do jeito que foi batido, pode. Lembram de como Djalminha cobrava pênaltis? Lembram de Zidane, batendo de “cavadinha” numa final de Copa do Mundo? Lembram dele, Pelé, inventando, ou consagrando a paradinha, sua marca registrada na cobrança das penalidades máximas?
Volto ao assunto porque, depois da cobrança de Neymar, cobranças de outra ordem começaram a ser feitas. Há quem diga que o pênalti já é uma covardia contra o goleiro. E que um pênalti cobrado com paradinha significa ampliar essa covardia e transformá-la quase em delito, a ser denunciado às Ongs de Direitos Humanos. Há também quem faça distinção entre uma paradinha e uma paradona – do tipo que cometeu Neymar. Lembro que a paradinha de Pelé era, de modo geral, mais sutil. O Rei apenas diminuía de modo abrupto a corrida. Não parava, a bem dizer. Quebrava o ritmo. E desse modo obtinha o que todo cobrador de pênaltis quer – que o goleiro escolha o canto antes de a bola ser chutada.
Neymar deu uma paradona. Com tanta convicção e classe que fez o goleiro Rogério Ceni cair de modo pouco condizente com sua categoria e experiência. Acontece. E ouço dizer que cobranças desse tipo são injustiças que se cometem contra o goleiro – a mais ingrata das posições, no jargão dos boleiros. Ora, peço licença para discordar. A posição do goleiro é mesmo ingrata (onde ele anda não nasce grama, diziam os antigos) e poucas humilhações do mundo do futebol se compararam à do frango clássico, aquela bola tomada no meio das pernas. Mas, na hora do pênalti, essa equação se inverte e o goleiro tem todos os privilégios. Se tomar o gol, ninguém irá contestar – mesmo que a bola for chutada no meio da meta e ele já estiver caído para um dos lados. Se defender, mesmo uma cobrança defeituosa, será chamado de herói.
No pênalti, todo o peso recai sobre o cobrador. Ele é que tem a responsabilidade converter um gol já feito. Sim, porque pênalti bem batido é bola na rede. Não tem como defender. A paradinha é um recurso do cobrador. Mas um recurso de risco. Qual é o pavor de quem dá uma paradinha (ou paradona, tanto faz)? Que o goleiro não se mexa, fique ele próprio estático no meio do gol. Ou seja, a paradinha do atacante se combate com a parada do goleiro. E assim, o cobrador fica com a necessidade de definir o chute, tendo perdido o impulso da corrida. Nesse caso, terá de contar com precisão e sangue-frio de neurocirurgião para, sem força, colocar a bola fora do alcance do goleiro, no canto baixo ou no ângulo. Conclusão: quem dá paradinha tem de confiar plenamente no seu taco. É uma virtude psicológica – tanto mais surpreendente em um garoto de 18 anos contra um dos mais completos e experientes goleiros do País.
E quanto de Robinho? Ora, um gol de letra dispensa palavras.

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