As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

De volta à nossa pequena pátria

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 22h38

Pois é, amigos, se vocês, como eu, estavam à míngua, podemos começar a matar a fome de bola. Foram iniciados os campeonatos regionais, de quem tantos falam mal, mas, para o meu gosto, ainda mantêm pelo menos parte do bom e antigo charme. Ponham antiguidade nisso. Afinal, o Campeonato Paulista, que é o mais próximo de nós, começou em 1902! Existia antes da fundação da Fifa. Quando a bola começou a rolar de forma oficial por aqui, Santos Dumont não tinha feito seu voo com o 14 Bis, a 1ª Guerra Mundial não havia começado e o primeiro samba não tinha sido gravado por Donga.

Cultura inútil à parte, lembremos que o Campeonato Paulista faz parte das nossas tradições, como fez parte da memória dos nossos pais, avôs e bisavôs. É uma instituição e tanto. E mesmo os monumentos combalidos devem ser preservados. Além disso, os campeonatos regionais abrem o ano futebolístico para valer e representam alívio considerável em nosso jejum de boleiros. Não adianta dizer que os torneios europeus continuaram durante o período de férias e nem que a Copinha já vai entrando na fase decisiva. Os europeus não saciam nossa sede e a Copinha, francamente: como pode um campeonato que reúne 92 times despertar algum interesse em seu início?

Já quando começam os campeonatos regionais é o nosso time que, de fato, entra em campo. Aquele que amamos, que nos alegra, pelo qual sofremos e nos angustiamos. Ele é insubstituível, mesmo que no jejum forçado nos consolemos com aqueles seres distantes que a TV apresenta nos impecáveis gramados de Europa. Damos uma olhada rápida na Copinha. Se estamos em férias na praia, paramos diante de um bate-bola qualquer, disputado por uma chusma de desocupados, e nos lembramos da frase de Nelson Rodrigues sobre a complexidade shakespeariana da mais sórdida das peladas. Qualquer sombra nos refresca.

Mas, quando surge em campo o nosso time de verdade, aquele um, o único e insubstituível, que escolhemos na distante e tenra infância ? aí então tudo muda. Você já notou? Quando nosso time joga, a partida mais objetivamente insossa ganha sabor diferente. Tudo é mais forte, mais intenso, colorido, tudo nos diz respeito de perto.

Por isso o são-paulino Décio de Almeida Prado, um dos maiores críticos de teatro que este país já teve, cunhou uma linda frase. Ele dizia que o nosso time do coração é como se fosse a nossa pequena pátria. Por cosmopolitas e globalizados que sejamos, é com ele que nos sentimos em casa e entre nossos pares. Salve, portanto, a chegada dos campeonatos regionais, que nos devolvem o convívio de nossas pequenas pátrias e nos trazem de volta a genuína emoção do futebol.

Emoção que, claro, pode ser boa ou má. Duvido que são-paulinos possam guardar lembrança positiva dessa rodada inaugural, que só lhes serviu para mostrar quanto o time vai sofrer para se adaptar ao novo esquema de jogo. Também não foi legal para corintianos, que deram início ao ano do centenário com um empate pífio. Melhor para palmeirenses e santistas, que começaram com vitórias folgadas. E ainda mais para a Portuguesa, que já venceu um clássico e pode sonhar com um ano melhor em relação aos anteriores. Aliás, nesse ponto a Lusa não está só. A primeira rodada é apenas isso: início de sonho para alguns, prenúncio de pesadelo para outros. São apenas os primeiros movimentos.

(Coluna Boleiros, 19/1/10)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: