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Depois da Olimpíada

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 21h58

26/8/2008

Quer a gente queira, quer não, acaba se envolvendo com um evento da
magnitude da Olimpíada. Não sei qual é o seu caso, mas o meu é o de um
monomaníaco (em futebol), que apenas eventualmente se interessa pelos outros
esportes. Quer dizer, de quatro em quatro anos ou quando existe alguma
competição especial e o Brasil, por acaso, tem chance de ganhar alguma
coisa. Somos também atingidos pelas notáveis decepções que acontecem quando
chegamos a essas disputas, em geral mal preparados, como mais uma vez parece
ter sido o caso, em algumas modalidades.
Ficam, então, aquelas impressões de exceção, como a vitória das meninas do
vôlei. Ou a grande proeza de Maurren Maggi, que contém todas as etapas de
uma épica esportiva. O fundo do poço, a iminência de desistir de tudo, a
volta por cima, etc. Se a trajetória esportiva de Maurren fosse escrita por
algum roteirista de cinema, alguém, com certeza, lhe diria para ser mais
verossímil e menos exagerado. É uma vida de cinema, a de Maggi – da acusação
de doping, injusta ao que parece, à medalha de ouro na China. Não há como
não se encantar com o caráter simbólico de todos esses passos, que se diriam
escritos pela mão do destino.
Também dos fiascos se podem tirar boas coisas, se soubermos olhá-los sem
raiva ou ressentimento. Claro, falo aqui da seleção masculina de futebol,
que se saiu tão mal, apesar de ter vencido a Bélgica na luta pelo bronze.
Não que o terceiro lugar não seja importante, deixemo-nos de frescuras. O
que pesou, e vai pesar sobre essa seleção, é a maneira como se deixou abater
pelos hermanos, sem qualquer perspectiva de reação ou esboço de que, pelo
menos, venderiam caro a derrota. Os únicos lances de ‘valentia’ que tivemos,
nesse quesito, foram os pontapés, atos de selvageria destinados a substituir
a raça, porque essa não se tem.
Sei bem que os problemas da seleção são táticos, técnicos e talvez pudessem
ser resolvidos por outro treinador ou por outro elenco. De qualquer forma,
esse elenco não me parece tão ruim assim a ponto de passar vexames. Alguma
outra explicação há de haver. E talvez ela passe pela falta de planejamento,
pela soberba da CBF e dos próprios atletas. Todos elos dos mesmos problemas,
e todos de difícil solução. Para ficar apenas entre os jogadores, deixando
que Dunga e Ricardo Teixeira se entendam. Criou-se entre os boleiros uma
mentalidade de superastros difícil de ser driblada. Dou apenas um ou dois
exemplos. Quando lhe perguntaram o que achava das críticas que estava
recebendo, Andersson respondeu que achava graça, pois quem o criticava não
ganhava, em toda a vida, o que ele, Andersson, faturava num ano. O pior é
que é até verdade. E, levando em conta o que se paga hoje a um jornalista, o
cálculo do volante pode até ser conservador. O problema está em dizê-lo em
público e assumir que fazemos parte de um mundo em que a única coisa que
importa é a conta bancária do cidadão. Assim, o rico tem sempre razão.
Essa é a lógica do momento, e que implica no esvaziamento completo da
questão ética. Outro exemplo: Robinho está fazendo com o Real Madrid
exatamente o que fez ao Santos alguns anos atrás. Não lhe importa que haja
um contrato em andamento. Se existe um paradeiro mais interessante (como
agora o Chelsea parece ser), por que deveríamos cumprir o que assinamos? Não
que o Real seja uma pia instituição e esteja sendo vítima nesse caso. De
certa forma, está provando do próprio remédio, pois também não se incomoda
em assediar jogadores com contrato em vigência, como fez exatamente com o
Santos, para levar Robinho. Em síntese: eles se merecem, e muito bem. São
farinha do mesmo saco.
Em comparação com esse tipo de conduta do futebol profissional ficam ainda
mais bonitas façanhas como a de Maurren Maggi e das meninas do futebol, que
ganharam prata, mas são de ouro.

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