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Depressão italiana

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 14h01

Quando vim para a Itália pensei encontrar um país em estado de graça pela
conquista do Mundial da Alemanha. Que nada. Vi mais torcedores exasperados
do que felizes. De certa forma, o escândalo no futebol, o Calciopoli, como
chamam por aqui, anestesiou a alegria da quarta estrela na camisa da
Azzurra. Pior ainda: nem mesmo a seleção vem se comportando à altura do que
dela se espera. Agora sob o comando do ex-jogador Donadoni (inexperiente
como técnico, a exemplo de Dunga), a Itália vem decepcionando nos jogos
classificatórios para a Eurocopa de 2008. Empatou em casa com a fraca
Lituânia (1 a 1) e – pior – perdeu para a França por 3 a 1, em jogo
considerado revanche da final de Berlim.
A derrota foi recebida com paixão meridional e já começa a se falar que a
seleção não é tudo isso, que a França a botou em seu devido lugar, que o
momento é de colocar os pés no chão, que talvez fosse melhor alguém mais
experiente para substituir Lippi, etc. Nada que a gente não conheça por
experiência própria, aplicada aos nossos próprios clubes e à seleção
brasileira. Somos muito parecidos com os italianos e, como eles, não temos a
paciência necessária para um trabalho a longo prazo. Queremos resultados.
Racionalidade diante do tempo é coisa de anglo-saxão. Não serve para o nosso
sangue latino, que ferve, e por qualquer motivo.
Mas a seleção é só capítulo à parte no baixo astral italiano.
Este se concentra mais é no campeonato, aliás, nos dois, as Séries A e a B,
que começaram neste final de semana. A Juventus, rebaixada para a B por
causa do escândalo, não deu sequer a alegria de bom início aos tifosi,
empatando com o Rimini. Encontro muitos torcedores da Juve aqui em Veneza e
todos se dizem revoltados com o rebaixamento. E, mais ainda, com a cassação
de dois scudetti, símbolo dos títulos conquistados. Quem exibe agora o
scudetto, o emblema da federação italiana que enfeita a camisa do campeão, é
a Internazionale de Milão.
E este tem sido o motivo da maior parte das brigas nas mesas-redondas na
televisão. Sigo algumas delas e – nesse ponto também – somos muito parecidos
com eles. Na mesa-redonda à italiana a regra número um é banir a
objetividade. Cada “analista” encarna o papel de torcedor de algum dos
grandes times. São personagens clubísticos, torcedores midiáticos e não
analistas frios, reunidos para debater o futebol. Os comentaristas alinhados
com a Juve têm se dedicado a cuspir fogo sobre os adversários. Dizem que a
Inter deveria se envergonhar do scudetto obtido não no campo de jogo, mas
sul tavolo, na mesa, que, em tradução livre, seria nosso famoso tapetão.
Enfim, a Inter tornou-se o adversário a ser abatido. Com a Juve na Sibéria
da Série B e o Milan penalizado em pontos, o time da Internazionale (que faz
jus ao nome, pois só tem cinco italianos inscritos em seu elenco) desponta
como grande favorito para manter na camisa um scudetto que não ganhou no
campo. Enquanto isso, as torcidas e boa parte da imprensa choram a debandada
de vários jogadores de primeira linha, como Thuram, Zambrotta, Emerson,
Shevchenko, que foram seguir carreira em outras plagas. A Juve perdeu até
seu técnico, Fabio Capello, que foi treinar o Real Madrid e se diz encantado
com o Campeonato Espanhol.
Enfim, a Itália é tratada pelos italianos como se fosse o último dos mundos,
esquecendo-se que a TV por assinatura Sky está pagando nada menos que 40
milhões de euros pela transmissão da Série B, um rico filão agora com a
Juventus. Somada a torcida da Juve (a maior da Itália) às de Napoli, Genoa,
Bologna, Verona e Bari tem-se na Série B metade dos tifosi do país. Daí os
40 milhões da TV, uma montanha de dinheiro. Seria interessante comparar com
o que a Globo paga pela nossa Série B, também cheia de times populares como
Náutico, Paysandu, Sport e Atlético Mineiro. Se os italianos choram, nós o
que deveríamos fazer?

12/9/2006

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