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Desafios da seleção

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 20h38

17/7/2007

Amigos, a meu ver a seleção brasileira tem dois problemas a resolver, que se
tornam mais evidentes com a vitória na Copa América. Talvez os dois estejam
interligados.
O primeiro diz respeito à forma de jogo e à sua eficácia. A forma é uma
expressão do estilo, da escola brasileira, feita de ginga, inventividade,
técnica apurada, jogadas imprevisíveis, etc. Vocês sabem: aquelas qualidades
que fizeram o nosso futebol famoso no mundo todo.
A eficácia se refere à maneira como esse estilo de jogo se mostra capaz (ou
não) de vencer. Ele se impôs com clareza em 1958, 1962 e 1970 – para ficar
nas Copas do Mundo. Perdeu em 1974, 1978 e, sobretudo, 1982, naquele jogo
batizado de A Tragédia de Sarriá.
O segundo desafio da seleção é o seu relacionamento com o torcedor
brasileiro, que parece ter esfriado. Os motivos são vários e já foram
apontados e discutidos pelos melhores cronistas: jogadores que saem cada vez
mais cedo para o exterior e perdem contato com o País, mercantilização da
imagem da seleção pela CBF, ausência de jogos no Brasil, etc. Esse
distanciamento se aprofundou com a derrota para a França na Copa de 2006.
Fica a pergunta: se essa seleção de “estrangeiros” se tornar vencedora, nós
a sentiremos mais próxima? Se ganhar o hexa na África do Sul, voltaremos a
nos apaixonar por ela? Na eventualidade de o Brasil sediar a Copa de 2014,
teremos por aqui uma renovada febre de paixão pelo escrete? Voltará ele a
ser a pátria em chuteiras, expressão que hoje tendemos a ridicularizar?
A julgar pelas declarações após a vitória, Dunga tem clareza sobre alguns
pontos. Primeiro: vencer é tudo, e o resultado anula as críticas. Segundo, o
título deve ser suficiente para “resgatar a auto-estima do torcedor
brasileiro, aquele trabalhador que mora no subúrbio e só tem alegria com a
seleção”. Ele se esquece de que o consolo do homem do subúrbio talvez seja
maior com seu time do que com a seleção, mas esta é uma outra história.
Ou seja, para Dunga, é vencendo que a seleção se recoloca no lugar de honra
simbólico do povo brasileiro. Será que é assim mesmo? Ele não entende que um
retorno ao “estilo brasileiro” seja imprescindível. Talvez porque esse
estilo não exista mais, ou tenha se tornado obsoleto no futebol moderno ou
mesmo porque ele, Dunga, não tenha grande apreço pela escola brasileira da
bola. Não existindo uma identidade estilística a defender, apenas o
resultado conta. Ganhou, tem razão. E a vitória, por si só, será capaz de
recompor os laços fragilizados entre a seleção e sua torcida.
No entanto, devemos lembrar que o estilo brasileiro de jogar futebol não é
algo neutro, uma invenção da cabeça de cronistas. É uma espécie de
linguagem, marca registrada, construída e depurada ao longo de gerações de
craques, de Friedenreich a Domingos, de Leônidas a Garrincha, de Zizinho a
Pelé. Uma linguagem corporal que fala às pessoas porque elas se reconheceram
nessa forma de jogo. Ou talvez sentiram naqueles jogadores uma espécie de
ideal a ser atingido, que expressava o que gostaríamos de ser e não
necessariamente o que éramos de fato. Nos imaginávamos completos como Pelé,
irreverentes como Garrincha, sábios como Didi, inteligentes como Tostão,
valentes como Jairzinho.
Daí porque talvez os resultados, que são fundamentais, não digam a última
palavra sobre o relacionamento entre o torcedor e a seleção. O Brasil de
2007 certamente não é o mesmo daquele dos anos 1960 e 1970. Qual a
“linguagem” futebolística que nos falaria hoje à alma e nos faria retomar o
antigo caso de amor com a seleção?

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