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Diego e Robinho, dois destinos opostos

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2011 | 14h10

VENEZA – Robinho e Diego fizeram a dupla símbolo do Santos campeão de 2002. Os dois meninos da Vila, duas crianças, um branco, outro negro, irmãos no campo e fora dele. Logo seguiram o destino dos brasileiros talentosos e foram embora. Diego foi antes, Robinho seguiu tempos depois. Hoje fazem caminhos divergentes tendo por epicentro o futebol italiano, um dos destinos mais desejados no paraíso europeu dos boleiros. Diego vai embora, indesejado pela Juventus, depois de um começo promissor no ano passado. Robinho chega ao Milan e junta-se a outras estrelas da constelação de Berlusconi.
Quando estive aqui ano passado, um conhecido, torcedor da Juve, sabendo que eu era brasileiro, veio me saudar e disse que, do jeito que estava gastando a bola, Diego não demoraria a se tornar o melhor do mundo. Estava errado. Algo ocorreu (ou deixou de ocorrer) e Diego não conseguiu manter o nível inicial. Resultado: vai para o Wolfsburg, na Alemanha. E sai atirando. Seu alvo, o diretor da Juve Beppe Marotta, que o brasileiro acusa de atualmente preferir jogadores italianos, pratas da casa, ao invés de “importados”, como ele. “Quem quer formar uma grande equipe não deve olhar a nacionalidade, mas apenas a qualidade dos atletas”, ensina Diego. Diz ainda que a Juve está formada por bons jogadores, mas faltam-lhe “campeões”. Como ele, supõe-se.
Já seu colega, amigo e irmão de sangue Robinho, faz trajetória oposta. Terminado o empréstimo no Santos (que lhe rendeu dois títulos no currículo, fora a alegria e a grana), teve de voltar ao indesejado Manchester City, que, por fim, acabou negociando com o Milan. Deve ser uma boa para ele. Mesmo porque, contrariando a suposta tese de Beppe Marotta, o Milan não liga a mínima para a questão das nacionalidades. E há uma legião de brazucas atuando na equipe rossonera. Para Robinho, que não se ambienta de maneira muito fácil, deve ser uma boa. Jogar ao lado de Ronaldinho e Pato deve ser moleza para ele. Pelo menos em tese. Mesmo porque o resto da equipe é muito boa e joga de maneira ofensiva, como o brasileiro está acostumado e gosta.
Aliás, o Milan foi a equipe que mais investiu nesse final de janela de contratações. E Robinho nem foi a aquisição mais badalada. Esta atende pelo nome de Ibrahimovic, que saiu do Barcelona falando mal do técnico Guardiola. O sueco disse que teve um belo início no clube catalão e, se havia perdido a motivação, não era culpa sua e sim “de uma certa pessoa.” Briguinhas com o técnico, o que acabou colocando o craque em disponibilidade e pronto para cair na rede de Berlusconi.
Por que essa febre de contratações do Milan na última hora? Não parece difícil explicar. Um especialista em marketing político e conselheiro dos poderosos italianos, Luigi Crespi, diz que há muitos anos Milan e Berlusconi são considerados “a mesma coisa”. Fala de maneira clara: “Se o Milan ganha, Berlusconi ganha; se o Milan perde, Berlusconi perde”. Ora, o premiê, que enfrenta dificuldades internas e crise em seu próprio partido, não pode facilitar. Desse modo, resolveu abrir o largo bolso e soltar dinheiro para essas contratações de impacto. A torcida não está quer ver futebol dentro de campo e não suporta sentir-se em inferioridade em relação à Internazionale, a rival direta. Quem acha que futebol não tem nada a ver com política, deveria fazer um curso básico com Luigi Crespi.
No entanto, Robinho é dúvida na cabeça do torcedor italiano. Ídolo no Santos, titular na seleção brasileira, ainda precisa provar sua eficácia na Europa. Domingo à noite assisti a uma mesa redonda e alguns jornalistas expressaram suas dúvidas. Em especial quanto a esse quarteto ofensivo do Milan. “Quem irá marcar nesse time quando a bola for perdida?”, se perguntam. Robinho não, certamente, embora, se eles tivessem visto mais o seu jogo, perceberiam que ele pode ser um bom ladrão de bolas. Mas, por certo esse “fantasista”, como chamam por aqui jogadores do seu tipo, não é conhecido por sua disciplina tática ou eficácia defensiva. Enfim, precisa provar algo mais e vencer onde seu espelho, Diego, não deixa uma grande lembrança.
Se não der certo, pode voltar para o Santos, que lá o lugar é dele.

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