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Dunga, nós e os lugares comuns

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 22h09

A voz corrente é que com os 4 a 0 sobre o Uruguai, Dunga carimbou o seu passaporte para a África do Sul. “Carimbou o passaporte”: notaram o lugar-comum? Pois deles é feito 90%, senão mais, de tudo aquilo que pensamos e reputamos como original. Quem nunca cometeu esse pecado atire a primeira pedra (ôpa, lá vai mais um!). Mas, enfim, e quem não os cometeu também quando Dunga assumiu a seleção? Como ele era o símbolo de certa concepção de jogo, falaram, quer dizer, falamos, que a “era Dunga” havia voltado e agora para o comando. Até quando, não se sabia. Eu mesmo escrevi que, provavelmente, Dunga faria uma espécie de mandato-tampão, até que Luiz Felipe Scolari estivesse disponível – na época, Felipão treinava a seleção portuguesa. Dunga foi ficando. E, ficando, encontrou um padrão de jogo. Que pode não ser aquele que desejamos, sonhamos e aspiramos, mas tem resolvido a questão. Principalmente contra adversários tradicionalmente difíceis, como foi o caso do Uruguai e seu tabu de 33 anos no Estádio Centenário.

É claro que essa boa campanha nas Eliminatórias coloca em suspenso uma certa “escola brasileira de jogar bola”, que era a que mais prezávamos. Fiquem tranquilos, não vou voltar ao supremo lugar-comum que é a polêmica eterna, esse Fla-Flu entre futebol-arte e futebol de resultados. Aquele papo: o que foi melhor, perder com a seleção de 1982 ou ganhar com a de 1994? São discussões acadêmicas, intermináveis, inócuas a meu ver, já que ninguém que eu conheça entra em campo só para dar exibição ou espetáculo. Desde que a bola começou a rolar, futebol é competição. Entra-se em campo para vencer. Se o espetáculo vier, será como subproduto, como excesso, por assim dizer. O Santos de Pelé, o Botafogo de Garrincha, o Palmeiras de Ademir da Guia, o Flamengo de Zico, etc – todos eles entravam em campo para ganhar. E ganhavam. Simplesmente porque esses times, além dos gênios citados, que definiram uma época e uma filosofia de jogo, tinham também outros excelentes jogadores, craques, que, ao procurar a vitória, tornavam belo o jogo. O tal jogo bonito prevaleceu porque se mostrou superior aos outros. Se fosse frágil, não teria sobrevivido tanto tempo. Prevaleceu porque, além de belo, era eficaz. E, assim, o fracasso de 1982 deve ser considerado um acidente de percurso, que tem o valor de exceção. Ou assim me parece, porque há muita gente boa que tem opinião contrária a respeito.

Já com o Dunga no comando, o que temos é a afirmação de outro estilo. A seleção brasileira, hoje, é um time de muita marcação e que joga bem nos contra-ataques, com muita eficiência. Tem sido assim contra os principais adversários, Argentina e Uruguai. Em seis jogos foram quatro vitórias e dois empates. 14 gols marcados e três sofridos. Quem irá discutir com tais números, ainda mais em tempo pragmático como o nosso?

É até possível que o Brasil enfrente mais dificuldades amanhã contra o Paraguai, quando, jogando em casa, no Recife, se sentirá obrigado a atacar. O próprio Dunga levantou essa hipótese em entrevista. Pode ser. E será interessante se for assim. Servirá para checar se esse novo estilo brasileiro padece de rigidez ou terá flexibilidade para se adaptar a situações diferentes. Jogar sempre do mesmo jeito tem lá suas limitações, mesmo quando parece dar sempre certo. Um dia emperra.

(Coluna Boleiros, 9/6/09)

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