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E a bola não quis entrar…

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2011 | 14h13

Rogério Ceni e Paulo César Carpegiani se disseram vencedores morais do clássico em que o São Paulo perdeu por 2 a 0 do Santos.
Muita gente lhes dá razão. Baseados em quê? Em números. No maior tempo de posse de bola, nos chutes a gol, nos passes trocados. Quem olhar as estatísticas, sem saber do resultado, concluiria por uma goleada tricolor – fora o show de bola. Já o resultado do jogo – números outra vez – diz o contrário. Venceu o Santos, com menor número de chutes a gol, menos posse de bola, menor número de passes trocados. Foi superior “apenas” num item – o número de vezes que conseguiu balançar as redes do adversário. Mero detalhe. Dois detalhes.
É curioso como toda essa análise numerológica tem de se servir de elementos mágicos para explicar por que o placar final não refletiu as estatísticas do jogo. “Tivemos falta de sorte”, disseram. Quer dizer, tudo saiu de acordo com o planejado, mas o acaso não quis que a superioridade fosse traduzida em vitória. Por exemplo, aquela bola chutada na trave por Jean, e que deixou os são-paulinos com o grito preso nas amídalas: por que não foi gol ? “Ora, porque a bola não quis entrar”. Essa frase, de boleiros tanto novatos como veteranos e de comentaristas de todas as índoles, traduz a nossa perplexidade diante do jogo. Em falta de melhor explicação, atribui-se ao objeto bola poder de decisão sobre a sua própria trajetória. Em meio às explicações estatísticas da ciência exata, estamos às voltas com a forma mais arcaica do pensamento mágico. Mandinga junto com o notebook do professor.
Com as estatísticas queremos cercar o imponderável de um jogo que não cessa de nos desafiar por suas oscilações. A meu ver, é inútil querer transformá-lo em ciência. O futebol é uma arte – no sentido amplo do termo. Um artesanato, que pode (e deve) ser aperfeiçoado no plano coletivo e no individual, mas tem muito mais a ver com o “saber fazer” de um pintor ou de um trabalhador especializado do que com as equações da ciência. Tem mais parentesco com a culinária e a escultura do que com a física e matemática. Ninguém sabe de antemão se um prato novo será genial ou apenas bom. Ou se uma tela revolucionará a arte da pintura ou será apenas repetição de centenas outras já existentes de forma rotineira pelo mundo.
Conclusão, minha pelo menos: no futebol, como nessas artes correlatas, é muito mais interessante analisar a qualidade do que a quantidade. De que vale ter dado mais passes, se a troca de bolas lateral de três metros conta tanto quanto o lançamento fatal de 40 metros? De que serve contar o número de tiros à meta se um chute torto na bandeirinha de escanteio vale a mesma coisa de uma colocada sutil no ângulo da meta? Qual o valor da posse de bola se a cifra não conta o que se fez durante esse tempo?
Claro que ataques sistemáticos, repetidos e eficientes tendem a se traduzir em gols. Tendem, mas também isso não é certo. E não precisamos de estatísticas para comprová-lo. O povo, mais sábio, apenas diz: futebol é bola na rede. Quem precisa de mais ciência e mais certezas, errou de esporte.
Na Colômbia
Quer dizer que já está tudo perdido para o Corinthians, como ouvi dizer por aí? Nada disso. Pelo menos não é a minha impressão. A situação é difícil, mas não desesperadora. Basta uma vitória simples, ou empate com gol marcado, para o Timão passar para a fase de grupos da Libertadores. Tarefa nada impossível, mesmo jogando na casa do adversário – e, com todo o respeito, estamos falando do Tolima, não do Boca Júniors. O problema não é nem o adversário, mas a maneira como o Corinthians vem jogando. Não faltou garra, abnegação ou seriedade no primeiro jogo. Mas faltou fluência. É impressionante como às vezes uma única peça perdida desarticula todo o conjunto. Essa peça tem nome. Chama-se Elias. Não há substituto para ele. Esse é o “x” do problema. Não para o jogo contra o Tolima, mas para o resto do ano.

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