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E a seleção, quando fica pronta?

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2011 | 14h13

Amigos, tem muita gente querendo saber se a infraestrutura (estádios, aeroportos, comunicação, etc.) fica pronta para a Copa de 2014. Justo. Eu também me preocupo em saber se a seleção estará pronta. Não dá indícios. A não ser nos primeiros jogos promissores da era Mano, tem se apresentado mal. Não consegue obter bons resultados contra seleções “grandes”, de primeira linha. Perdeu para França e Argentina; empatou com a Holanda. É começo de trabalho? É. Mas não parece muito promissor. O jogo com a Holanda é exemplo. Com exceção de uns 20 minutos de bom futebol no início do segundo tempo, o time não engrenou. Tomou vaia em Goiânia.
A alegação de Mano parece consistente: “Prefiro a dura realidade que resultados ilusórios”. Verdade. Melhor pegar logo de vez as carnes de pescoço do que ficar se enganando em vitórias contra adversários inofensivos. Mesmo assim, não se percebe uma linha evolutiva da seleção. E, para permanecermos na tal da realidade, melhor não levar muito em conta o resultado hoje contra a Romênia que, além de não pertencer ao andar de cima do futebol, ainda vem desfalcada. Trata-se de jogo festivo, a despedida de Ronaldo, etc. No entanto, se a seleção não der show, ou pelo menos vencer, as vaias do Serra Dourada poderão se repetir no Pacaembu.
O problema não são tanto as vaias, embora elas não possam ser ignoradas. É que elas são sintoma de algo mais grave, o estranhamento do brasileiro com sua seleção, que não se atenuou. É verdade que agora existem no time alguns jogadores que atuam no País, mas esse fato (positivo) não foi ainda capaz de familiarizar o torcedor com a sua seleção. Ele ainda a sente como corpo estranho, uma equipe que é prestigiada se fornece um bom espetáculo e hostilizada quando decepciona. O apoio incondicional, esse que Mano pede, ainda não é um fato. Por isso, diz o treinador, “teremos de educar” a torcida para que, durante a Copa, jogue junto com o time, esteja este bem ou mal, na frente ou atrás no placar.
O que me pergunto é se esse projeto pedagógico proposto pelo técnico vai colar. Há quem diga que o apoio incondicional virá de maneira natural assim que a Copa começar. Mas pode não vir. Há um longo afastamento entre torcida e seleção que já vem preocupando até mesmo a insensível CBF. Data de muito tempo, a meu ver, mas ficou mais explícita no fiasco da Copa de 2006. Dunga foi escalado para estreitar esse relacionamento. Deu no que deu.
Agora a situação é diferente. A próxima Copa será aqui e Mano Menezes, desde o começo, deu mostras de preocupação com o problema. Sabe que, para ganhar a Copa, será preciso um time em campo, mas o apoio da torcida também ajuda. E muito. Como ganhar de volta esses corações e mentes? De várias maneiras, supõe-se. Não fazendo distinção muito rígida entre os jogadores que atuam na Europa e os que continuam no Brasil, como faziam seus antecessores, para os quais os atletas que aqui ainda jogavam eram considerados de segunda classe. Outra medida: fazer a seleção jogar mais no Brasil durante a fase de preparação, o que implica em menos lucro e mais risco, como se viu em Goiânia.
O nó da questão é esse: parece que o torcedor estabeleceu com a seleção uma relação de consumidor diante de um serviço. Ele paga e, se não recebe o que lhe é prometido, chia. O Procom do torcedor é a vaia.
Desse modo, a única saída viável para a seleção ter apoio é começar a jogar bem. Tivesse enfiado dois ou três gols na Holanda, e sairia consagrada de Goiânia. Melhor ainda se tivesse vencido e dado show. É o que dela se espera. Ninguém, portanto, se iluda com essa história de apoio incondicional. Ele não virá, pelo menos nesses jogos preparatórios. Na Copa, devido ao clima de competição, pode até ser diferente. Mas é melhor não confiar.

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