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E a seleçãozinha chegou lá

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 14h27

30/1/2007

Está certo que a seleção sub-20 foi garfada em dois pênaltis prá lá de
duvidosos. Mas que os brasileirinhos ficaram abaixo da expectativa, lá isso
é difícil negar. Para poder dizer que o Brasil está jogando alguma bola o
técnico Nelson Rodrigues teria de ser mais nacionalista que o seu homônimo
ilustre, o genial dramaturgo e cronista que definiu a seleção como a “pátria
de chuteiras”. No domingo, por exemplo, o Chile jogou melhor. Mais rápido,
mais entrosado, mais liso, entrava como queria na defesa da seleção. Se você
trocasse a cor da camisa tudo pareceria mais lógico – os chilenos jogavam
como brasileiros e os brasileiros como…sei lá? Como estão jogando os
brasileiros atualmente? Alguém aí sabe?
Não faz muito tempo bastava você ver um dos grandes times brasileiros em
campo para detectar uma marca, um estilo, uma assinatura. Mais ainda quando
se tratava da seleção, que, em tese, seria representante maior dessa nossa
maneira de jogar. Cadê o estilo? Sumiu. Os motivos a gente já conhece, e a
quem ainda não sabe deles sugiro uma olhada na convocação do Dunga para o
amistoso contra Portugal: entre os 22, não há nenhum que atue no Brasil. Nem
unzinho, para consolo. Desse modo, a europeização do “escrete”, como o
chamava Nelson Rodrigues, o escritor, parece inevitável. Pobre Nelson, que
não se cansava de cantar e louvar a grande escola brasileira de jogar bola e
falar mal da Europa, para ele a grande fraude do futebol. Nelson era assim
mesmo. Amante das coisas do seu país, ufanista e exagerado, no entanto
entendia como ninguém a relação entre a maneira como se toca na bola e o
modo de ser de um povo. Esse Nelson, grande cronista e autor de clássicos
como Vestido de Noiva, Boca de Ouro e A Falecida, não viveu para ver a sua
pátria de chuteiras jogando como um time de gringos. Poupou-se do sofrimento
e morreu em 1980.
Seu xará, o Nelson Rodrigues técnico, antenado com o que hoje chamam de
“futebol mundial”, esse McDonald’s da bola, armou um time mais baseado no
vigor físico do que na técnica, no molho e na ginga, qualidades que não faz
tanto tempo tínhamos por aqui até em excesso. Essa seleção de jovens, de
jogadores ainda “brasileiros”, é mais trombadora que criativa, apesar de
alguns talentos como Alexandre Pato, Lucas e, talvez, Leandro Lima. A
fórmula globalizada não está dando certo e a vaga na Olimpíada de 2008
passou a ser duvidosa. Quem sabe jogando mais ao nosso perfil estaríamos em
melhor posição. Vai-se saber. E, se é para perder, melhor que seja jogando
do nosso jeito, ou não é? Acontece que tanto a seleção principal quanto a
seleçãozinha são testemunhas da descaracterização do futebol brasileiro como
estilo, linguagem e expressão cultural de um povo.
PAULISTÃO
Analistas mais capazes já detectaram o perigo de o bloco dos grandes se
destacar rapidamente dos outros e assim tirar a graça do campeonato. Os mais
otimistas falam de cinco ou seis concorrentes para as quatro vagas dos que
decidirão o título de 2007. Bom, é muito cedo ainda para falar, mas a
tendência é que isso aconteça mesmo. Se a atual estrutura do futebol
brasileiro, construída em benefício dos “empresários” e parasitas,
enfraqueceu os times outrora grandes, o que se vai dizer dos pequenos, que
lutam com mais dificuldades ainda? Esses, se não for feita uma pajelança
para valer no futebol brasileiro, estarão condenados à irrelevância. O que é
uma pena.

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