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É justo ou não é?

Luiz Zanin Oricchio

27 de dezembro de 2011 | 23h05

Costumamos dizer que um placar é justo se vence o time que joga melhor. Com
mais razão ainda, dizemos que um título é justo se o melhor time ganha o
campeonato. E dizemos que o campeonato por pontos corridos é o mais justo
porque premia a regularidade contra o acidente, que pode acontecer quando se
decide uma taça em um ou dois jogos finais.
Então precisamos decidir o que fazer com este Campeonato Paulista, que chega
à rodada final ainda indefinido. Afinal, há outro consenso no ar: o de que o
São Paulo é o melhor time, embora o Santos ainda possa ser considerado
favorito ao título pela simples e boa razão de que para isso depende apenas
de suas próprias pernas.
Pernas que podem não ser as mais habilidosas do campeonato, mas que foram
acumulando os pontinhos necessários para colocá-lo em vantagem sobre o
tricolor, que tem de vencer o Ituano e ao mesmo tempo secar o Peixe contra a
Portuguesa.
A superioridade do São Paulo ficou tão clara no clássico que nem precisa ser
demonstrada. É um daqueles óbvios ululantes, como dizia Nelson Rodrigues. O
São Paulo não apenas dominou o jogo, como o fez durante os 90 e poucos
minutos da partida. Foi melhor em qualquer quesito: ataque, defesa,
posicionamento do meio-de-campo, criatividade, posse de bola, postura
ofensiva, raça, aproveitamento. Um banho, como até mesmo a galera santista
deveria admitir, e para o seu próprio bem. Digo isso porque o Santos pode
muito bem tornar-se campeão no próximo final de semana, o que deve ser
comemorado, mas com lucidez. Se não vierem reforços, não vejo esse time –
nem com o milagreiro Luxemburgo no comando – lutando pelo título no
Brasileiro.
Quer dizer então que o melhor time paulista pode ficar sem a taça num
campeonato tido como o mais justo? Pode, por que não? E isso porque andou
perdendo pontos pelo caminho, porque começou atrasado em função da campanha
pelo tri mundial, porque os jogadores estavam cansados, estressados,
relaxados, o que for. Bem, tudo tem um preço , e o Mundial em Tóquio bem
vale um Campeonato Paulista, não é? O São Paulo poderia reclamar também que
este é um campeonato de tiro curto, sem segundo turno. Mas, neste caso, ele
foi mais beneficiado do que prejudicado porque jogou sempre em casa. Repito:
ganhou todos os clássicos, sim, e sempre em casa. Houvesse segundo turno,
teria de enfrentar o Santos na Vila e o Palmeiras no Parque Antártica.
Chamar o Morumbi de campo neutro é a maior cascata do mundo. O próprio
supervisor de futebol Marco Aurélio Cunha, eufórico depois do jogo,
declarou: “Quem manda no Morumbi é o São Paulo; aqui é nossa casa e aqui não
perdemos nem jogos da Libertadores”, conforme se lê no site da Gazeta
Esportiva. Segundo a boa observação de Fábio Sormani, na Rádio Record, essa
declaração de Cunha deveria ser arquivada e exibida pelos interessados toda
vez que a Federação Paulista ou a CBF quiserem garantir aos trouxas que o
Morumbi é campo neutro. Enfim, o São Paulo, que tem o melhor time, não pode
se queixar de nada, e deve receber essa possibilidade de título como uma
bênção do destino.
Já o Santos, que começou como o patinho feio do campeonato e nem por isso
virou cisne na reta final, será campeão injustamente, caso isso venha a
acontecer? Nada disso. Terá tido o mérito de arrumar um time pelo menos
competitivo antes que todo mundo achasse isso possível. Veio chegando,
chegando e está aí, com boas possibilidades de ganhar um título que não vê
desde 1984. Terá uma pedreira pela frente, a Lusa, desesperada. Mas, como
disse, depende apenas dos próprios pés, da cabeça – e do coração, que também
faltou na luta contra o São Paulo.
Será justo? Claro que sim, da mesma forma que será justo se o título for
para o melhor time. Justiça, em futebol, é um conceito mais do que relativo.
E, quer saber? Talvez nas outras coisas da vida também.

4/4/2006

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