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E o caminho se faz ao andar

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 13h44

Como somos inconstantes! Bastou uma atuação impecável de Kaká contra a Nova
Zelândia para que o jogador do Milan desbancasse o até então imbatível
Ronaldinho Gaúcho na preferência do público. Ouvi, vi e li o deslumbramento
de comentaristas, mas também entrei num site esportivo (Gazetaesportiva.net)
e comprovei que os internautas passaram a ter Kaká como favorito (mais de
60%) para ser o melhor brasileiro da Copa da Alemanha.
Que pode ser mesmo, não há nenhuma dúvida. Bastava ter acompanhado suas
atuações pelo Milan na temporada para comprovar sua regularidade, poder de
decisão e o sentido de equipe que os italianos tanto valorizam. Mas o que
aconteceu no treino contra a Nova Zelândia? Por exemplo, Kaká entendeu antes
dos outros que o jogo pelo meio estava congestionado demais e começou a cair
pelas pontas. Foi assim que deu a assistência a Ronaldo para abrir a
contagem. Essa capacidade de enxergar o jogo é apenas um detalhe, mas como o
próprio gol, segundo o Parreira, também é um mero detalhe, deve ser levada
em consideração.
Será que foi essa visão tática do jogo que elevou a cotação de Kaká? Duvido.
Aposto que o lance que o colocou na preferência do eleitorado foi aquele em
que arrancou do meio do campo e foi levando a defesa adversária até marcar o
seu próprio gol. Somos ainda muito dependentes dos efeitos especiais de uma
jogada individual. Mas não são sempre elas que decidem uma partida, ou até o
mesmo o destino de uma seleção num mundial.
De resto, o que sabemos sobre o que vai acontecer nesta Copa já tão próxima?
Quase nada. Cada competição e, dentro dela, cada equipe, irá construir a sua
própria história, que começará ser contada a partir desta sexta-feira. Esse
time brasileiro, formado por estrelas milionárias e mimadas como gatas de
luxo, se converterá numa grande equipe de futebol, uma daquelas
inesquecíveis, de antologia, para ser lembrada até depois do Juízo Final,
como a de 1970? Não sei. Tem ingredientes para tanto, mas cabe a eles, e ao
imponderável, decidirem entre a glória e o fiasco, porque não haverá meio
termo possível.
Inconstantes que somos, já passamos do mais risível otimismo (“favoritos
absolutos”, rosnava-se pelas esquinas) a um pessimismo cheio de pudor.
Chegamos a dizer que tudo andava tão a nosso favor que só poderia resultar
em desastre. Grandes jogadores no auge da forma, todos já realizados
profissional e financeiramente, nenhuma contusão mais grave, nenhuma
polêmica, bom estado de espírito, etc. e tal. Tudo isso só poderia acabar
mal porque quando não se confia em um país e sua gente, como é o nosso caso,
vento a favor só pode significar prenúncio de tempestade. Os supersticiosos
ficaram mais aliviados quando houve um princípio de briga entre Adriano e
Edmilson e, principalmente, quando este foi cortado por contusão. Agora são
as bolhas de Ronaldo, e assim por diante. Já temos uma cota administrável de
contratempos que nos tiram da confortável e incômoda posição anterior.
Mas a história dessa seleção de 2006 ainda precisa ser escrita por seus
atores principais. Eles devem mostrar serviço e numa Copa do Mundo, que é
quando se separam as crianças dos adultos. Por isso não concordo com alguns
colegas que dizem que a seleção ou Ronaldinho nada mais têm a provar. Como
não? Têm tudo a provar, sim senhor. Se time e craques badalados e cantados
como melhores do mundo e de todas as galáxias negarem fogo na hora agá, como
levá-los a sério? Por isso, em minha opinião, ninguém se consagra ou cai em
desgraça por antecipação. O jogo tem de ser jogado. Como dizia Antonio
Machado, um dos meus poetas favoritos: “Caminante, no hay camino, se hace
camino al andar.”
Ronaldinho, Kaká, Ronaldo, Adriano, Robinho e todos os outros têm de fazer o
seu caminho. Construí-lo. Nada está predestinado. O resto é chute. E, em
geral, chute fora.

30/6/2006

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