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É preciso entrar no ritmo do Brasileirão

Luiz Zanin Oricchio

30 de dezembro de 2011 | 00h12

É como me disse um amigo: “o segredo é pegar o ritmo desse campeonato”. Ele me respondeu desse jeito quando me queixei de que achara a primeira rodada meio chata. “É que você está viciado em jogo decisivo”, ensinou. “O excesso de adrenalina no sangue não deixa você ver a beleza de uma disputa desse tipo, que começa agora e termina em dezembro, daqui a oito meses.” E continuou a falar, elogiando o sistema de pontos corridos, no qual todos os jogos se equivalem nos três pontos que, ganhos, serão somados à conta do time e, perdidos, nunca mais serão recuperados.

Esse meu amigo é um filósofo (de botequim, mas esses são os melhores). Ele diz que um clube que ganha esse tipo de campeonato é como o homem ajuizado, que começa a sua poupança quando jovem e recebe a recompensa na maturidade tranquila, no conforto de uma aposentadoria bem calçada pela conta bancária. Concordei. A recompensa a longo prazo não deixa mesmo de ter a sua beleza serena e retilínea. Tomara todos os times pensassem assim e disputassem cada partida como se fossem ao último prato de comida no meio do deserto.

Seria ótimo se fosse assim, mas sabemos que brasileiro adora deixar as coisas para a última hora. Desse modo, todos, no fundo, acham que sempre haverá tempo para se recuperar, que as rodadas finais são as que realmente importam, que muita água vai correr embaixo da ponte etc e tal. Honrando essa tradição (que já não sei se existe de fato ou se faz parte do folclore nacional), vamos deixando tudo para o final e ignoramos a regra básica do campeonato – quem quiser ser campeão mesmo tem de encarar cada partida como se fosse a última.

É verdade também que, paralela ao campeonato, corre outra competição, uma verdadeira corrida de obstáculos armada contra os clubes. Ela atende por vários nomes: janela de transferências para o exterior, Copa América, Mundial sub-20, para ficar nos mais óbvios. Ou seja, não se sabe exatamente se os times que começaram o campeonato serão os mesmos que continuarão a disputa mais tarde. Ou melhor: sabe-se muito bem que é muito difícil que se mantenham. Haverá saídas e contratações. Perdas e ganhos. A fisionomia dos times altera-se e, em geral, não é para melhor. Os times com jogadores mais cobiçados serão os mais assediados. Haverá também as disputas da Copa América na Argentina e do sub-20, que prejudicarão seletivamente os clubes com jogadores selecionáveis. Assim é o futebol brasileiro: quanto melhor o time, mais é punido, o que serve para dar uma nivelada (por baixo) no campeonato.

Com tudo isso contra, fica difícil ligar-se logo de cara nas primeiras rodadas, embora eu dê toda a razão ao meu amigo sábio e poupador. O Campeonato Brasileiro premia a regularidade, a sensatez e o planejamento. Pena que tudo isso seja em teoria, porque não existe coisa mais bagunçada do que o calendário nacional do futebol. Com uma agenda dessas, não existe racionalidade que aguente em pé.

Adrenalina. Se o Brasileirão ainda não esquentou, a Libertadores, pelo contrário, encaminha-se para seu desfecho – e com temperatura máxima. Fez bem Muricy em poupar os titulares para o jogo de amanhã contra o Cerro Porteño. Jogando no Pacaembu, o Santos está obrigado a fazer o resultado, já que a volta será no Paraguai. O time brasileiro tem tudo para passar. Está em boa fase e a defesa se acertou. Ou melhor, foi acertada. É mais time que o Cerro, mas precisa tomar cuidado e não errar. Sobretudo, não pode tomar gol em casa. Casa? Sim, o Pacaembu é a casa paulistana do Santos, uma espécie de residência secundária. Porque casa mesmo, o lar, é a Vila. Entendo as razões econômicas, da diretoria, mas não parece sensato dispensar o alçapão numa hora dessas.

Boleiros, 24/5/2011

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