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E se o nome dele fosse Robiño?

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 20h36

3/7/2007

Uma emissora de televisão deu 30 segundos a João Saldanha para explicar por
que o Brasil havia vencido a Iugoslávia. João nem precisou desse tempo todo:
“O Brasil ganhou porque Zico se chama Zico. Se chamasse Zicovic, a
Iugoslávia teria vencido.” No domingo, o Brasil ganhou porque Robinho se
chama Robinho. Caso se chamasse Robiño, o Chile teria vencido. O craque
disse sua palavra. A definitiva.
Longe de mim menosprezar a análise tática do futebol, prática que se tornou
popular entre técnicos, comentaristas e boleiros de botequim. Influenciados,
possivelmente, pela importância que a Europa atribui ao assunto, o que temos
é uma falação numérica infindável: 4-4-2, 3-5-2, 4-3-2-1 e sei lá mais o
quê. Uma amiga, escutando um papo desses, espantou-se: mas o que é isso,
futebol ou número de celular? Todo esse falatório tecnocrático desfaz-se
diante de dois dribles e uma pedalada. Como o “futebol científico” da União
Soviética derreteu sob Garrincha e Pelé em 1958.
Por coincidência, outro dia ouvi o mesmo Zicovic, aliás, o Zico, dando
entrevista, agora na condição de técnico do Fenerbahçe. Lembrando sua época
de craque, Zico disse que, quando jogava, nunca ouvira falar em esquema
tático e outros bichos. E olhe que ele foi treinado, entre outros, por Telê
Santana, cujo nome hoje ninguém ousa pronunciar sem antepor o qualificativo
de “mestre”.
O fato é que, até Robinho decidir o jogo, encontrando seu espaço pela
direita (o craque sempre encontra seu espaço, costuma dizer Pelé), o Brasil
de Dunga patinava no jogo, mesmo ganhando por 1 a 0. Foi por lá que ele
recebeu ótimo passe de Vágner Love e fez o segundo, de cavadinha, na saída
do goleiro. E foi por lá que driblou dois adversários em velocidade e
finalizou de pé esquerdo. Um golaço. Por que estes lances aconteceram?
Porque Robinho esqueceu o que os Capello da vida lhe enfiaram na cabeça e
jogou o futebol aprendido nas praias de São Vicente, no Portuários, na base
do Santos. Voltou a ser Robinho.
É em busca de momentos assim que a torcida vai ao campo, ou liga a TV para
ver um jogo. Momentos de magia, de inesperada beleza, ou senão de luta, de
tensão, de entrega, de drama. Uma partida é um teatro, com a diferença de
que a peça não está dada de antemão, por mais que os “professores” queiram
prever tudo. O texto do jogo vai sendo escrito à medida em que a bola rola e
os atores se vêem obrigados a improvisar, embora ensaiem muito antes de
entrar em cena.
Dessa beleza, o brasileiro anda bem carente. Daí a badalação em torno de um
jogador como Dodô, do qual se convencionou dizer que “não sabe fazer gol
feio”. E é isso mesmo. Dodô tem a técnica, a arte. A gente sabe quando um
jogador a tem pela simples maneira como toca na bola. Até o som produzido
pelo encontro da chuteira com ela é diferente. E Dodô vai fazendo seus gols,
sempre com classe. A beleza está associada à elegância dos movimentos, como
no balé e outras artes cênicas.
Daí a justificada valorização desse jogador que passou por grandes clubes,
como São Paulo e Santos, sem encantar ou fazer história. Beneficiado pela
boa fase do Botafogo, Dodô vai consolidando a imagem de esteta da bola.
Quantos como ele existem no Brasil? Dá para contar nos dedos de uma só mão,
se tanto. Por isso não é preciso pensar muito para descobrir por que os
estádios estão vazios.
Sem o craque, meus amigos, não há solução.
A tática pode ter sua importância, mas é o craque que faz a diferença

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