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Eles não cantam a Marselhesa

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 21h10

Se servir de consolo, não é apenas no Brasil que o torcedor vive uma crise de relacionamento com a sua seleção. Também na França o público e os “bleus” não atravessam seu melhor momento, aquele do encantamento com as vitórias na Copa de 1998 e na Eurocopa de 2000, quando a equipe foi saudada como logotipo da democracia racial da França moderna. O momento é bem outro. A era Zidane acabou, bons resultados escasseiam. Outro dia, a França perdeu para a Áustria por 3 a 1 pelas Eliminatórias para a Copa de 2010. Reabilitou-se em casa derrotando a Sérvia por 2 a 1. Mesmo assim, a cabeça do técnico Domenech, o Dunga deles, continua a prêmio. A exemplo do que aconteceu no Engenhão, no jogo do Brasil com a Bolívia, também o Stade de France não lotou. Para não dar na vista, os organizadores fecharam o anel superior do estádio, que tem a capacidade de abrigar 80 mil torcedores. Menos de 50 mil se deram ao trabalho de prestigiar a equipe.

Segundo analistas, e a própria direção do futebol francês, a origem do desamor entre torcedores e a seleção vai além das circunstâncias de vitórias ou derrotas, normais no mundo do futebol. É algo de mais profundo, um esfriamento de relações que ameaça o próprio futuro do futebol francês. Feita a constatação, tomaram providências. A principal delas: a contratação de um grande nome da publicidade, Frank Tapiro, conselheiro do presidente Nicolas Sarkozy, para dar uma sacudida nesse relacionamento desgastado. A entrevista de Tapiro ao jornal Libération é reveladora.

O estudo realizado pela FFF (Federação Francesa de Futebol) constata que o afastamento entre seleção e público não é conseqüência direta da má fase do time dentro das quatro linhas. Afinal, há pouco a França disputou o título com a Itália no Mundial da Alemanha, depois de atropelar o Brasil. Pelo contrário, Tapiro admite, é talvez o sucesso que tenha causado os maiores estragos. “As vitórias de 1998 e 2000 podem ter tornado alguns jogadores muito arrogantes e pretensiosos”, diz.

Assim, seria preciso reciclar esses atletas nas artes do relacionamento com o público. O marqueteiro se propõe a ensiná-los a saudar a galera quando entram em campo, dar declarações corretas à imprensa, participar de mesas-redondas sem cometer gafes. Um verdadeiro código de conduta a ser cumprido pelos bleus em busca da popularidade perdida. De acordo com a cartilha de Tapiro, “egos e caprichos devem ser deixados em casa quando se joga pela seleção, pois a camisa impõe certos sacrifícios”, acredita. Por exemplo, pegou mal a notícia de que os jogadores haviam se rebelado na véspera do jogo com a Sérvia por causa do horário do desjejum: 8h30 da manhã foi julgado “cedo demais” pelos jogadores.

O público também tem notado que a maior parte deles permanece indiferente durante a execução do hino. E olhe que é preciso fleuma para ficar apático diante da Marselhesa. A maior parte nem sequer conhece a letra do aguerrido hino francês, o mais empolgante entre todos. Tapiro informa que, desde já, os garotos das categorias de base irão aprender a cantar a Marselhesa para que, caso cheguem um dia à seleção principal, não dêem o vexame dos atuais titulares. “Por que não cantam?”, se pergunta Tapiro. “São apenas dois minutos e faz tanta diferença para milhões de franceses.”

Enfim, a lição pode servir à CBF: quando um caso de amor esfria, chame o publicitário.

(Coluna Boleiros, 16/9/08)

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