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Emoções na reta final

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2011 | 14h18

Nem tudo acabou. Nem depois da trepidante rodada do fim de semana se pode dizer que o Campeonato Brasileiro terminou. Tem ainda muita coisa pendente – uma última vaga na Libertadores, a ser disputada entre três clubes, e o rebaixamento, que também caminha para ser resolvido nos últimos jogos. O fato é que palmeirenses, cruzeirenses e gremistas estão fazendo mais contas do que professor de matemática. E o mesmo furor aritmético, por motivos opostos, tomou conta de torcedores do Corinthians, Goiás e Paraná. Todo mundo de calculadora na mão.
O torce-e-seca tomou conta da galera. Achei graça quando, antes de começarem os jogos, um amigo e uma amiga, ambos corintianos, vieram me perguntar: “Você sabe se o Fábio Costa joga?”, quis saber um. E a amiga emendou: “Será que o Maldonado agüenta os 90 minutos?” Curiosa “solidariedade”, de quem tinha muito interesse próprio no bom desempenho do Santos diante do Paraná.
O Peixe acabou ganhando e pode ter dado ótima contribuição para que o Corinthians permaneça na Primeira Divisão. Mas não o fez por ser bom samaritano – é que estava em jogo também a sua classificação para a Libertadores. Vaga que acabou garantindo em virada épica, quando perdia por 0 a 2, e Kléber Pereira marcou três gols em dez minutos de jogo. Curiosa foi a reação de outro amigo, este santista, quando soube do resultado: “Esse Kléber fica sem marcar um tempão e vai desencantar logo para beneficiar o Corinthians?” Para ele, era preferível “garantir” a queda do rival nessa rodada e deixar a vaga da Libertadores para ser decidida no último jogo, contra o Fluminense. Assim é o torcedor, ou alguns deles. E tudo isso faz o encanto do futebol.
O fascínio dos estádios lotados, por exemplo. Que beleza é a torcida do Flamengo lotando o Maracanã. Se existe um time que foi carregado no colo pela massa dos seus torcedores, este foi o Flamengo, em arrancada histórica da zona de rebaixamento até a conquista de uma das vagas da Libertadores da América. O Mengo pode ainda terminar como vice-campeão, o que não seria pouca coisa para quem começou com expectativas tão baixas. No caso, vale a velha frase: é a torcida que tem um time e não o time que tem a sua torcida. A cada rodada, a galera foi insuflando alma na equipe, de resto muito bem montada por um até então injustiçado Joel Santana. Mas talvez essa recuperação do Mengo não estivesse prevista nem mesmo na prancheta de Joel.
O mesmo pode ser dito da torcida do Corinthians, que tem empurrado esse time tão fraco com a determinação dos fundamentalistas. Amanhã, mais do que nunca, ela será necessária, na batalha do Pacaembu, contra o Vasco. Uma vitória simples livra o Corinthians do descenso, mas prevejo que o jogo não será fácil, nem recomendável para corintianos com pressão alta.
Com tantas emoções ainda existe gente que acha o campeonato por pontos corridos desinteressante. Não acredite. Há interesses escusos aí.
Tragédia na Fonte Nova
Podemos pensar que essa mesma paixão, que é a vida do futebol, também se torna responsável por tragédias como a da Fonte Nova, em Salvador. Mas a culpada é a paixão ou a irresponsabilidade de quem abriu os portões para as comemorações da torcida baiana? Ou de quem sabia que o estádio não tinha condições para abrigar tamanha multidão e mesmo assim deixou que o jogo lá acontecesse? Tudo isso precisa ser apurado e providências tomadas. Agora, não acredite em quem generaliza o episódio e dele tire a conclusão de que o Brasil não pode receber a Copa de 2014. Também nesse tipo de conclusão prematura existem interesses escusos.

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