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Entre a modéstia e a ambição

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 21h52

22/7/2008
O campeonato ganha dinâmica própria e cria fatos às vezes estranhos. Por
exemplo: fui domingo à Vila e presenciei uma cena que me pareceu inusitada.
Depois da sofrida vitória do Santos sobre o Sport, mísero 1 a 0 com direito
a sufoco do time pernambucano, vi a exigente torcida do Santos comemorar
como se fosse um título. A galera cantou o hino do clube (o oficial) e os
jogadores, reunidos no círculo central, agradeceram pelo apoio. Uma
confraternização.
Em outros tempos, pelo que havia apresentado em campo, o Santos teria saído
vaiado pelo resultado magro. Mas, dadas as circunstâncias, foi mesmo uma
grande vitória. A euforia dos jogadores e a comemoração da torcida
confirmam, se ainda fosse preciso, a draga profunda em que se encontra o
time. Se os três pontos parecem preciosos como gotas d’água no Saara, se o
reencontro com a vitória depois de 10 jogos sem vencer são fatos dignos de
nota, não devem, por isso, encobrir a realidade. O Santos mal jogou para o
gasto. Poderia perfeitamente ter perdido para o Sport e ninguém estranharia
o resultado. Tomou uma pressão danada dentro de casa e mostrou os problemas
de sempre. Não existe ninguém, nem Kléber, que ponha a bola no chão e pense
o jogo. A defesa continua muito vulnerável, embora a entrada de Fabiano
Eller (para mim o melhor em campo) tenha já mudado um pouco o padrão de jogo
naquele setor. E os atacantes continuam descalibrados, perdendo as poucas
chances que se criam. Kléber Pereira ia perdendo até o pênalti. Sua sorte
foi que o goleiro rebateu a cobrança para a frente e ele próprio arrematou
de cabeça.
O resultado foi um pequeno refresco para quem ainda está na vice-lanterna
(se é que isso existe), mas o Santos não terá vida fácil nesta semana.
Justamente porque enfrenta outro time mordido, embora em situação oposta – o
Palmeiras.
Sim, porque os dois começaram o ano em situações inversas. O Santos cortando
despesas; o Palmeiras investindo alto. O Santos perdendo a comissão técnica,
que se mudou para o Palmeiras. Perdeu também jogadores, e não repôs. Depois
contratou de baciada, saiu da Libertadores, mandou técnico embora, etc. Já o
Palmeiras tem elenco de qualidade, para os padrões do futebol brasileiro.
Apresentou planejamento grandioso, com direito inclusive a construção de uma
arena no Parque Antártica. Se no Palmeiras tudo foi ambição, no Santos a
palavra de ordem foi modéstia. Ambos decepcionaram, até agora.
O Santos porque provavelmente a diretoria previu que o time ocuparia posição
intermediária na tabela. Ficaria ali, vegetando entre a 10ª e a 15ª
posições, sem nada a temer ou aspirar. Acontece que o mingau desandou e o
rebaixamento virou possibilidade real e palpável. Daí o desespero,
contratações em penca, etc. Para ver se o planejamento pífio não redunda em
desastre no final do ano.
Com bons jogadores e comissão técnica de ponta, o Palmeiras poderia esperar
mais regularidade e consistência. Mas, de certa forma, embora esteja em 6º
lugar, também decepciona. Tem dificuldade para se impor fora de casa e a
derrota para o fraco Goiás pode ter sido o sinal de alerta para Luxemburgo.
Com essas duas expectativas opostas – um foge do rebaixamento, o outro
aspira ao título –, o clássico desta quinta pode ser eletrizante. O
Palmeiras é favorito. Mas, você sabe como é: clássico é clássico, e
vice-versa, segundo a frase imortal.

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