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Estamos todos no mesmo barco antiquado

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2011 | 14h19

Para mim, é um sinal de vitalidade do campeonato essa necessidade de, a cada semana, termos de ajustar os nossos pobres prognósticos ao que acontece na rodada. Agora é vez de falar que Corinthians e Vasco polarizam a disputa pelo título. O que seria apenas uma obviedade, uma vez que ocupam as duas primeiras posições da tabela, com distância milimétrica de dois pontos.
O Vasco abriu essa vantagem ao derrotar o Bahia por 2 a 0 fora de casa. O Corinthians também poderia ter vencido. Estava jogando bem, parecia sólido, mas com um a menos o que se pode fazer? Desse modo, o empate, arrancado quase quando “as cortinas estavam para se fechar”, como dizia aquele querido locutor romântico, o Fiori Gigliotti, teve mesmo sabor de vitória, sem que isso, no caso, seja apenas um lugar-comum. O resultado valeu, e muito.
Os dois ponteiros do campeonato foram ainda ajudados pelos tropeços de Fluminense, Botafogo e Flamengo. Quer dizer, Corinthians e Vasco não têm do que se queixar da vida. Entre tanta coisa que oscila na vida e neste Brasileirão maluco, estão lutando de maneira adequada pelo objetivo, que é o título, e contaram ainda com a gentil contribuição de quem está em seus calcanhares.
Mas, enfim, como se costuma dizer, a disputa está aberta e por dois motivos dos mais triviais: não existe quase distância entre os competidores e também não há qualquer desnível técnico substantivo entre eles. Quem vencer, o fará por detalhes.
Um desses detalhes pode muito bem ter sido o pontinho que o Corinthians arrancou lá no Beira-Rio, por que não? O futebol é feito dessas coisas, a gente nunca sabe o que fará a diferença no balanço da existência, digo do futebol. Por isso, talvez, Tite tenha vibrado tanto com o gol de Alex aos 44’ do segundo tempo. Pelo ponto, que pode pesar em conta tão apertada como a deste ano, mas também pelo valor moral, também muito importante como sabemos todos, menos os idiotas da objetividade.
Enquanto os corintianos vivem esse círculo virtuoso composto pela boa posição na tabela, estádio construído com ajuda do governo, abertura da Copa, etc., seus rivais paulistanos vão caindo pelas tabelas. A crise do Palmeiras parece não ter fim. A ponto, talvez, de não podermos mais falar em crise, mas em problemas estruturais plantados lá no Parque Antártica. Não existe clube que precise se repensar com mais urgência que o Palmeiras.
Mas, em grau diferente, o próprio São Paulo não vai bem das pernas. Os dirigentes estão acostumados a considerar a demissão do técnico uma espécie de pajelança, que tudo resolve, pelo menos momentaneamente. Não foi assim com a saída de Adilson. O time não se reencontrou e agora parece mais distante do sonho de se tornar campeão. Não desperta de sua letargia, mas o que pode fazer a sete rodadas do final?

Em graus diferentes, Palmeiras e São Paulo são os dois clubes que terão de se olhar no espelho com mais realismo durante o recesso de fim de ano. O caso mais grave, claro, é do Palmeiras, há muito sem um título de importância. Mas a ausência de títulos é apenas sintoma e não a causa. Será preciso ver o que traz tanta instabilidade ao Palestra, se é que se pode decifrar essa esfinge. Já o São Paulo, depois de longa fase vencedora, em que era tido como o único clube de fato profissional no Brasil, mostra que não é tão “diferente” assim, como proclama seu presidente Juvenal Juvêncio.
Bem ou mal, somos todos mais ou menos iguais e navegamos no mesmo barco vistoso, porém antiquado do futebol brasileiro. A modernidade ainda não chegou e até agora não conseguimos nos reinventar de modo criativo para nos colocarmos em sintonia com o futebol globalizado. Fica para depois da Copa, como tantas outras coisas.

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