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Estranho jogo

Luiz Zanin Oricchio

17 Fevereiro 2017 | 21h36

 

O futebol é um jogo estranho. Quem duvida disso? Nesta semana tivemos a goleada do PSG sobre o Barcelona por 4 a 0. Mas não é sobre esse jogo que quero falar, já que meu interesse por futebol europeu é apenas teórico. Quer dizer, frio.

Quero falar sobre algo mais próximo, muito mais: a vitória do São Paulo sobre o Santos por 3 a 1, em plena Vila Belmiro. O “em plena”, no caso, não é figura de retórica, expressão de ênfase ou qualquer outra dessas inutilidades linguísticas. Todos sabem que o Santos é muito forte jogando em sua casa. Por quê? Não sei direito. Deve ter algo a ver com a mística do estádio, uma memória inconsciente da presença de Pelé, coisas assim. Claro que todo mandante tem vantagem. Mas a vantagem do Santos, na Vila, sempre parece maior. Não é impressionismo. Os números, que nem sempre falam direito, no caso confirmam.

Pois bem, o jogo de quarta-feira começou justificando esse favoritismo. O Santos jogava como um relógio. Afinado. Dava gosto de ver o entrosamento. Passou pela minha cabeça um pensamento deste tipo: “O time está sendo recompensado por ter mantido a maior parte do elenco e o técnico”. Logo saía o primeiro gol, depois de bela jogada de Vitor Bueno, que entortou o são-paulino Buffarini e colocou na cabeça de Copete, que marcou. Eram 10’ do primeiro tempo.

O Santos continuou a jogar seu bom futebol até que uma “bola vadia” (como dizia Nelson Rodrigues) viria a mudar o panorama. Bola cruzada na área, o bom lateral Zeca faz um pênalti infantil em Gilberto, e pronto – estava decretado o empate com a cobrança precisa de Cuevas.

O que deveria ter feito o Santos após sofrer o empate? Nada. Deveria ter continuado a jogar como antes. De maneira serena, criativa e regular. A vitória viria com tranquilidade, supõe-se.

Mas não foi o que se viu. Com o empate, o panorama mudou, talvez de maneira sutil, a princípio. O São Paulo ganhou autoconfiança; o Santos debilitou-se. Aquele gol de Cuevas não era apenas um empate. Assinalava o início de um novo jogo.

No intervalo, Rogério Ceni fez boa substituição. Trocou Neílton por Luís Araújo e passou a dominar o jogo. A vitória veio com naturalidade, com dois gols, duas pontadas, ambas de Luís Araújo. Neste jogo chamado futebol, uma única substituição pode alterar o conjunto. É o que ocorre, nos melhores como nos piores casos. Sorte de Rogério? Ou competência? Você decide.

O fato é que 2º tempo foi outra coisa; mas algo se alterara lá atrás, quando o Santos tomou o empate e não soube assimilar o golpe.

Por isso se diz que times de fato maduros e autoconfiantes são raros. Quais são eles? Aqueles que sofrem um gol e continuam a jogar como antes. Porque sabem que estavam jogando certo e tomar um gol faz parte da vida, não justifica uma mudança de projeto. São esses mesmos raros times os que, no campo do adversário, jogam como se estivessem em casa. Porque não veem motivo para alterar seu modo de jogar apenas porque levam vaia ou sofrem pressão. Também é coisa da vida. 

São muito poucos esses times. O Barcelona é um deles. Ou era. Antes do tranco do Paris St. Germain, pelo menos.

Estranho jogo.