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Eu, se fosse o Dunga…

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2011 | 14h20

Fazia tempo que não víamos convocação precedida de tanta ansiedade como esta. A esta altura do campeonato, alguns milhões de pessoas estarão falando a frase que dá título a essa coluna, à espera do momento em que Dunga anunciará os 23 convocados que irão à África do Sul tentar o Hexa. E continuarão a repeti-la depois, mesmo porque a lista de 23 e mais os sete que ficarão na espera (uma exigência da Fifa) dificilmente baterão na íntegra, com a relação que cada um de nós, milhões de brasileiros técnicos de futebol, gostaríamos de ver vestindo a camisa amarela na Copa.
E, no entanto, não deveria haver tanta expectativa. Afinal, a atual seleção foi sendo construída aos poucos, venceu a Copa América, classificou-se com facilidade nas Eliminatórias, ganhou da Argentina…isto é, preencheu todos os requisitos para se tornar uma unanimidade. Se isso fosse possível. Mas não é. E não é por alguns motivos muito simples.
Primeiro, apesar de todo o seu sucesso (mais um jargão: futebol é resultado), a seleção de Dunga não convence inteiramente ao público. Por mais que ganhe, não encanta e não empolga. Segundo: existem no momento alguns jogadores que têm encantado o País, caso mais evidente dos meninos do Santos.
Assim, a pergunta que vem sendo martelada pela imprensa com a proximidade da Copa é sempre a mesma: será que ele vai enxergar o óbvio e levar Paulo Henrique Ganso e Neymar, que estão arrebentando no Santos? Ou a mentalidade burocrática, o excesso de prudência, a fidelidade ao grupo fechado irão prevalecer? Junto com essas grandes dúvidas, outras despontam, para complicar a vida do treinador. Por que não levar Diego Tardelli, que está em grande fase no Atlético Mineiro? E mais esta, levantada por corintianos insuspeitos: será que existe um lateral-esquerdo jogando melhor do que Roberto Carlos?
São essas as dúvidas, mas é claro que o clamor maior é por Neymar e Ganso que, afinal, são a novidade atual do futebol brasileiro. Essa demanda da opinião pública deve ser interpretada. Todos sabem que, se forem convocados, não é para serem titulares. Ficarão na reserva e, a não ser por algum acidente de percurso, dificilmente entrarão em algum jogo. Participação da Copa da África como o então Ronaldinho participou da Copa dos Estados Unidos antes de se tornar Fenômeno. Assistindo. Treinando. Fazendo parte do grupo. Sobre isso, Vampeta contou uma história interessante. Diz ele que um dia perguntou a Parreira por que não colocava Ronaldo para jogar já que o garoto destruía nos treinos. Parreira respondeu que isso iria criar um tremendo problema para ele, pois o menino ia jogar bem, não poderia ser sacado do time e isso o obrigaria a alterar todo o seu esquema tático. Quer dizer: o craque é um problema. Bem, pelo menos esta é a versão do Vampeta, e faz todo sentido.
O clamor público por Neymar e Ganso expressa, na verdade, o desejo que temos de ver a seleção jogando de outro jeito. Ok, todo mundo gosta de vencer e o time de Dunga tem ganhado seus jogos, isso não se pode negar. Mas, da seleção, queremos mais. Queremos, na verdade exigimos, que jogue no ataque, pratique aquele tipo de futebol de toques, dribles e jogadas sinuosas que tanto admiramos. Mas talvez esse gosto não seja compartilhado pelo treinador, que tem seus próprios critérios, digamos “estéticos”, para o futebol. De qualquer forma, se convocar a dupla santista, ou pelo menos um dos meninos, ele terá acenado que não é completamente hostil à maneira de jogar do futebol brasileiro. E que, num acidente de percurso, talvez possa ignorar seus próprios dogmas e colocar um grão de fantasia naquele time tão certinho e, sinto dizê-lo, tão previsível.
Eu sei que a época é outra, que os personagens são incomparáveis e que a nossa época não liga muito para as lições da história. Mas não custa lembrar que, em 1958, a seleção saiu do Brasil com dois jogadores sobre os quais pairavam dúvidas e que eles entraram apenas no terceiro jogo da Copa, para nunca mais sair do time. Seus nomes? Garrincha e Pelé.

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