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Falta de tolerância à frustração

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 21h48

O Campeonato Brasileiro vai chegando ao fim e as previsões se estreitam. Agora parece claro que apenas São Paulo e Grêmio disputam o título. Quem será o campeão? As coisas parecem tender mais para o time paulista, mas os gaúchos estão em cima e, a qualquer vacilo do adversário, podem assumir a ponta. A outra pergunta – lá no lado de cima da tabela – é: quem vai entrar e quem vai ficar fora da Libertadores? Por exemplo, já se especula que o Palmeiras, depois de distanciar-se da disputa do título em razão da goleada sofrida diante do Flamengo, pode também ficar sem a vaga na Libertadores. Depois de começar o ano como favorito a tudo, o Verdão vai sobrar?

A partir dessa perspectiva, já se desenha um clima de caça às bruxas no Parque Antártica, por mais que os dirigentes neguem. Nesse ponto, faço um parêntese: Muricy soltou uma frase interessante no final de semana. Disse que conta à imprensa no máximo uns 10% do que realmente se passa dentro do clube. É o normal. Roupa suja, e outros itens, convém lavar em casa. Disso sabemos todos, e portanto estamos longe de conhecer os fatos que ocorrem nos bastidores dos clubes. Ouvimos uns e outros, em “off”, e do que podemos apurar, tiramos as nossas precárias conclusões.

Daí que não se pode ter como verdades absolutas tudo o que se diz. Técnico e dirigente esportivo são como políticos – não é que não digam nunca a verdade; podem até dizê-la, desde que seja de seu interesse. Além disso, é claro que interessa ao Palmeiras, e a todos os que o comandam, esfriar essa crise que se desenha. O título parece que já se foi. Mas a vaga na Libertadores ainda se encontra bem ao alcance – e pode salvar o ano, e o projeto. Porque, senão, haverá a inevitável “apuração de responsabilidades”, que é o sinônimo mais civilizado de caça às bruxas.

Toda essa pressa e truculência faz um estranho sentido nesse jogo da bola, que é feito de detalhes, e com detalhes se perde ou se ganha. Por exemplo, é impossível dissociar a derrota fragorosa diante do Flamengo da instabilidade da zaga palmeirense. Agora, pense bem: a culpa maior é do zagueiro incapaz de acompanhar o ataque adversário ou de quem o coloca lá? Essa a questão que deve estar sendo formulada, em surdina, pelas alamedas do Parque Antártica. Essa, entre outras. E, tudo isso, meu amigo, não faz parte dos 10% que os dirigentes, técnicos e mesmo os boleiros revelam em suas entrevistas.

Porque, além de tudo, o futebol é cercado por uma alta dose de irracionalidade. Não deveria ser assim, mas é. A prova está no próprio Palmeiras ou nas pessoas que o rodeiam. Refiro-me, claro, à parte da torcida que agrediu a delegação palmeirense e, em particular, o técnico Luxemburgo, no embarque para o Rio. Podemos pensar que quem tem uma torcida dessas nem precisa de adversários, pois àquela altura o Palmeiras estava muito bem colocado na disputa pelo título e o tudo o que precisava era incentivo e não instabilidade. Carinho, e não agressões. Mas como convencer as pessoas de que muitas vezes a pressão só atrapalha?

De modo que o Palmeiras (como outros clubes, é bom que se diga) entrou na reta final da disputa e pronto para eleger seus heróis ou seus vilões. Nem todos, é claro, devem ser comparados àquela torcida violenta, mas, de qualquer forma, parece que a tolerância à frustração é artigo de luxo no Parque Antártica. Quem sonha alto torna-se muito susceptível.

(Coluna Boleiros, 18/11/08)

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