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Faltou a seriedade do Rei

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 23h42

Na rodada Pelé, o time do Rei afundou. E o maior rival dos tempos do Rei reabilitou-se e voltou a ser candidato ao título. É isso aí. O Santos jogou fora a chance de se aproximar dos líderes e o Corinthians encerrou o ciclo de sete jogos sem vitória ao vencer o arquirrival Palmeiras. Mais que isso: comemorou os três pontos enquanto seus principais adversários – Cruzeiro e Fluminense – marcavam passo. O primeiro, perdendo do Atlético-MG; o segundo, empatando com o Atlético-PR. Nas três primeiras posições, ficou tudo embolado. Abaixo desse primeiro pelotão, com Santos, Inter e Grêmio, passou-se a torcer pelo tropeço dos líderes. E pouco mais que isso.

Resumindo: a rodada foi ótima para o Corinthians. Na estreia de Tite, voltou a vencer, o que é excelente cartão de visitas para o técnico que volta, em especial junto à torcida, agora reanimada para a arrancada rumo ao título. E isso, sem que o time tenha apresentado futebol de primeira. Longe disso. Jogou para o gasto. Mas a boa notícia é que, depois de conquistar o gol, voltou a parecer aquele time sólido dos tempos de Mano Menezes, quando dificilmente tomava gol. Um Palmeiras enfraquecido (e talvez com a cabeça em outro torneio, a Sul-Americana) não foi capaz de lutar pelo empate. Nem com a entrada de Valdivia, que melhorou o jogo palmeirense, mas parecia meio baleado. Tanto assim que foi substituído, talvez por precaução.

De qualquer forma, o Palmeiras tem mesmo de apostar suas fichas na Sul-Americana. Não apenas porque é “o caminho mais curto para a Libertadores”, como se costuma dizer. Mas porque é um título, que pode salvar um ano muito ruim até agora. E o Palmeiras tem sorte. Vai pegar amanhã o Atlético-MG, pelo torneio sul-americano. Compreensivelmente o Galo está mais preocupado em se salvar da degola no Brasileirão, e deve entrar com time misto contra o Palmeiras. Em tese, o time de Felipão tem tudo para se dar bem. Mas, sabe como é, o futebol não comporta nenhum tipo de acomodação baseado na suposta fraqueza do adversário.

O Santos que o diga. Fez dois gols no Grêmio Prudente com a facilidade de quem chupa um picolé e toma um copo d”água. Voltou do intervalo desligado. E, então, o inacreditável começou a ocorrer. Resultado: a improvável virada do lanterna sobre o 4.º colocado e, até domingo, postulante ao título de campeão brasileiro. O que aconteceu? Uma dessas fatalidades do jogo da bola, dessas que contribuem para torná-lo o mais imprevisível e, portanto, o mais emocionante dos esportes coletivos? Em termos. Acidentes acontecem. Não foi a primeira, nem será a última vez que um time bem mais fraco vence o mais forte.

Cada uma dessas zebras tem a sua história particular. A de domingo, na Vila, deve ser atribuída ao desleixo. O time menosprezou o adversário e voltou desconcentrado. Tomou um gol, tomou o segundo e então se viu presa do nervosismo. Não vi comando nem fora e nem dentro de campo para reverter aquela situação surrealista de um time muito superior tecnicamente, com dois jogadores a mais e um pênalti a favor, perdido em campo como se enfrentasse o Barcelona.
Era o jogo em homenagem a Pelé. Por ocasião dos 70 anos, muito se falou sobre o Rei, de seus números, da técnica insuperável, dos títulos etc. Pouco se lembrou da infinita seriedade com que ele entrava em campo e do respeito que tinha pelos adversários. Para Pelé, qualquer jogo era caso de vida ou morte. Fosse uma final de Copa do Mundo ou uma partida contra um humilde time do interior. Ia em qualquer bola como quem vai a um prato de comida. Se não tivesse esse espírito, não teria chegado nem de longe aonde chegou. Essa é a lição que ficou para ser ensinada a Neymar & Cia. O futebol pode ser uma grande brincadeira. Mas é brincadeira para ser levada a sério. Muito a sério.

Boleiros, 26/10/2010

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