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Fantasma Scolari assombra Dunga

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 21h54

Tudo que Dunga menos queria, aconteceu. Luiz Felipe Scolari foi demitido do Chelsea e, até segunda ordem, anda à solta no mercado. Isso quer dizer o seguinte: nenhum treinador de equipe de primeira linha deve estar se sentindo confortável com a disponibilidade de rival de tamanha força. E menos ainda Dunga que, apesar de resultados numericamente razoáveis, nunca teve seu trabalho reconhecido na seleção. Desse jeito, pelo menos para ele, o jogo de hoje entre Brasil e Itália reveste-se de importância que vai muito além de um amistoso contra rival de tradição.

Se o Brasil ganhar – e bem -, Dunga terá se vacinado contra uma demissão precoce, a cerca de um ano e meio da próxima Copa do Mundo. Já se perder, ou mesmo se empatar, ou se o Brasil jogar da habitual maneira burocrática, as trombetas do apocalipse começarão a soar, lembrando que o técnico que conduziu o País ao penta está disponível para tocar o barco rumo ao hexa na África do Sul. Enfim, tudo é hipótese. Mas nada improvável, a não ser que outra grande equipe europeia, do nível do Chelsea, imediatamente contrate Felipão, para alívio de Dunga. E de outros treinadores também, os postulantes ao maior cargo do futebol brasileiro – em especial Vanderlei Luxemburgo e Muricy Ramalho, nomes mais cogitados, ou talvez Paulo Autuori.

Vale a pena lembrar as circunstâncias em que Dunga foi contratado, logo após o fracasso na Copa de 2006. A questão não era tanto a derrota do Brasil, mas a maneira como ela aconteceu. A seleção foi acusada de desleixo, indiferença, sapato alto, etc. O antídoto imaginado pela CBF foi a invenção de um técnico novo, zero quilômetro, mas que tivesse, como jogador, imagem associada à raça e ao amor à camisa. Sua finalidade seria, além de montar um time vencedor, restabelecer certo elo simbólico entre a seleção e a torcida brasileira.

Analisando friamente, Dunga até que não foi de todo mal no primeiro quesito – a seleção ganhou a Copa América e está virtualmente classificada para o Mundial, apesar dos tropeços e jogo chato. Mas fracassou totalmente no segundo. Nunca mais teve a antiga ligação com a torcida. Se para ufanistas incuráveis tudo continua como antes, como nos tempos das Copas de 1958 ou 1970, nos botecos e nas rodinhas entre os torcedores o que se vê é a indiferença completa. Cada um de nós só tem olhos para seu time, e a seleção que se dane. O “time de todos” não existe mais. E Dunga foi incapaz de restabelecer esse elo, o que talvez não seja culpa sua.

Em todo caso, é normal sentir nostalgia da Copa de 2002, última vez em que esse amor incondicional pela seleção se manifestou. Trata-se de um passado recente, a globalização da bola já estava em pleno vigor, mas qualquer coisa palpitava em torno daquele time. E esse sentimento, suspeitamos, tinha muito a ver com seu comandante, com o poderoso chefão que regia a equipe à beira do campo, tratando seus atletas com um estilo de pai bondoso e justo, porém severo. Felipão encarna à perfeição essa figura paterna, tão ao gosto do brasileiro. Mas Dunga nunca conseguiu corresponder à imagem projetada pela CBF.

Essa é a ameaça, mais simbólica do que técnica, que paira sobre Dunga a partir da demissão de Scolari. A não ser que o atual técnico faça a seleção voar contra a Itália e dissipe o falatório que já se ouve em todo canto. Como se sabe, em futebol o resultado é tudo. Ou quase tudo.

(Coluna Boleiros, 10/2/09)

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