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Faz parte do show

Luiz Zanin Oricchio

27 de dezembro de 2011 | 23h03

Então deixa ver se eu entendi: o juiz não viu nada, a bandeira ficou na
dúvida e só acompanhou a jogada. O outro auxiliar enxergou uma falta de
Tevez em Leonardo e tentou avisar o árbitro, que, além de não ver, também
não ouviu a comunicação. Mas a bandeirinha escutou o colega. Então entrou no
circuito, e chamou a atenção do juiz para a observação do outro auxiliar. E
o gol foi anulado. Da “conversa’’ participava também o quarto árbitro e
sabe-se lá mais quem. Quer dizer, um tremendo bate-papo via ponto eletrônico
enquanto o jogo rolava. Uma espécie de grupo de trabalho arbitral.
Nas entrevistas da noite, a bandeirinha (será que ainda podemos chamá-los
assim? ) Ana Paula Oliveira dizia que a arbitragem estava mudando, evoluindo.
Que agora se tratava de uma “equipe de arbitragem’’, realizando um trabalho
de conjunto, como o de um time de futebol. Ninguém, sozinho, é responsável
por uma vitória ou uma derrota. Quando se ganha, todos ganham; quando se
perde, a responsabilidade é do grupo. Pronto: esse chavão de técnicos e
jogadores já faz parte do vocabulário dos juízes e bandeirinhas.
E nada mais justo do que essa apropriação de termos antes privativos dos
boleiros. Afinal, a “equipe de arbitragem’’ definitivamente já faz parte do
nosso show. Está por fora quem repete aquele outro clichê – arbitragem boa é
aquela que não aparece. Isso é coisa do tempo em que se amarrava cachorro
com lingüiça, expressão que o neo-europeu Felipão exumou para desqualificar
times que pretendem jogar no ataque. Pois bem: juízes discretos,
bandeirinhas anônimos e introvertidos são seres tão antiquados quanto um
ponta-esquerda como Canhoteiro. Hoje, o juiz e sua equipe não se limitam a
fazer cumprir a regra – têm de dar espetáculo. Devem rivalizar com os
craques e no futuro talvez possam até se candidatar ao motorádio de melhor
em campo.
De modo que, nas mesas redondas do domingo à noite, quem eram os destaques
da rodada? Por acaso o Tevez, que fez o gol de placa anulado? Ou o Edmundo?
Não: a grande estrela era Ana Paula. Linda de morrer, produzida, falante e
satisfeita consigo mesma, foi a rainha do programa Terceiro Tempo, da TV
Record. A musa da bandeira ganhou mais espaço do que qualquer outro aspecto
de uma rodada que praticamente decidiu o Paulistão. E não estou eu aqui,
gastando a coluna com o mesmo assunto? Pois então se compreende por que um
recurso polêmico como o ponto eletrônico foi testado num clássico de risco,
em que se jogava a última chance de um dos postulantes ao título. É que, se
fosse lançado em jogo de menor importância, entre dois times pequenos, não
teria a mesma repercussão. Tinha que ser com personagens escolhidos a dedo,
num Palmeiras e Corinthians, o clássico de maior rivalidade de São Paulo,
com transmissão pela TV aberta. Na sociedade do espetáculo, vale tudo para
aparecer. Faz parte do show.
FIQUEM FRIOS
Com a volta dos gols pelo Real Madrid, o lobby de Ronaldo na imprensa pode
enfim relaxar um pouco. Aliás, nem deveria ter se inquietado tanto: nem por
um segundo passou pela cabeça de Parreira substituí-lo ou deixá-lo no banco.
Ou mesmo questioná-lo. O próprio técnico já esclareceu tudo de antemão. O
lugar do Fenômeno no comando do ataque da seleção é tão seguro quanto o
nascer do sol no dia seguinte. Só não joga se contundido, e de contusão
grave. Esteja ou não em boa fase, tem lugar garantido. Aliás, esta história
de fase é para jogador comum. Craque não tem fase. Craque é.
Está certo. Apenas não entendo por que no Brasil algumas pessoas são postas
além do bem e do mal, acima de qualquer controvérsia. Num país em que todos
são culpados até prova em contrário, em que gente decente é tratada aos
pontapés e com a maior desfaçatez, em que um ídolo da estatura de Pelé é
visto como um pateta que só fala asneiras – pois bem, em país tão
irreverente e folgado, por que se tornou tabu discutir, apenas discutir, o
futebol de Ronaldo? Me iluminem, por favor.

28/3/2006

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