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Feitas as contas, o Timão ficou no lucro

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 23h37

Andei lendo um livro sobre o técnico José Mourinho, ex-Internazionale, agora no Real Madrid. Da leitura, deduzo que ele e todos os treinadores do mundo alimentam a obsessão de zerar o fator acaso no futebol. Para tanto, lançam mão de vários expedientes, das neurociências às pranchetas e aos despachos na encruzilhada. Em vão. Nelson Rodrigues chamava de Sobrenatural de Almeida a interferência daquilo que não se pode prever no andamento de uma partida, seja uma reles pelada, decisão de campeonato ou mesmo de Copa do Mundo.
O futebol nos faz (ou deveria nos fazer) mais humildes. Ele nos mostra que existe sempre alguma coisa que escapa, que vai além de nossas mais científicas previsões, dos nossos planos mais elaborados e detalhistas. A vaidade do ser humano é a de tudo dominar. O futebol mostra o homem como ele é – nu e desamparado diante das intempéries da vida. Na verdade, a utopia de Mourinho jamais será realizada. Nunca ninguém exercerá controle absoluto sobre todas as variáveis de uma simples partida de futebol. Um insignificante morrinho artilheiro derruba a mais intrincada das teorias táticas.
Esse papo todo vem em função do belo jogo Internacional 3 x Corinthians 2, em Porto Alegre. Talvez não tenha sido a melhor partida do campeonato em termos puramente técnicos, mas em emoção… sai de baixo. A começar pelo gol que seria do empate do Timão, evitado pela bela defesa de Nei, zagueiro colorado que deveria tentar a sorte debaixo das traves. Foi, claro, expulso e o pênalti, convertido aos 44, daria o empate ao Corinthians. Mas quem poderia prever o que aconteceria naquela cobrança de falta por Andrezinho, no provável último lance do jogo? Não adianta agora crucificar Moacir pela bola desviada de cabeça que acabou por entrar no gol de Julio Cesar. Ele tentou fazer o melhor. Desviou a trajetória da bola que, achava, iria acabar dentro do gol. Ao tentar salvar seu time, o afundou de vez. Coisas do mundo, coisas da vida – diria o grande cruzmaltino Paulinho da Viola.
É necessário pensar que a derrota, nessas circunstâncias, não deveria abater o Corinthians. Pelo contrário. Pode servir de estímulo. Domingo, no Sul, não merecia a derrota. Por outro lado, na quarta, contra o Santos, na Vila, não merecia a vitória. Tudo somado, uma mão lavando a outra, o Timão está quite com o destino e ainda saiu ganhando. E é assim mesmo no sistema de pontos corridos – os desvios do acaso vão sendo somados e debitados de uma partida à seguinte, até que, no fim da longa caminhada, o campeão será aquele que de fato mostrou melhor campanha. Daí a justiça final do sistema, que pode ser construída a partir de injustiças parciais. Um time perde jogos que merecia ganhar e ganha outros que merecia perder. Dessa forma méritos e deméritos se equivalem e se anulam entre si.
O que importa, no fundo, é a maneira como o Corinthians jogou. Pode ter cometido erros em detalhes ali e aqui, mas mostrou que é time consistente, pronto a jogar bem mesmo na casa do adversário. Talvez não tenha a mesma solidez defensiva do tempo de Mano, mas ganhou nova fluência ofensiva na fase Adilson. Tornou-se mais agradável de ver, mais dinâmico e agudo no meio de campo e ataque. Enfim, está jogando bem e é isso que deve interessar à sua torcida.
Outro que voltou a jogar bola e deu mostras de ressurreição foi o Santos na bela goleada de sábado contra o Cruzeiro. Não, não é o mesmo time do primeiro semestre, aquele que marcava sob pressão e criava dezenas de chances de gol a cada partida. Aquela foi uma primavera que floriu e passou. Mas, de qualquer forma, os lances incisivos reapareceram. Em especial nos pés de Neymar, redivivo após a crise artificial. O garoto amadureceu. Agora apanha e cala. Era o que todos queriam, não é?

Boleiros, 28/9/2010

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