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Fogo amigo

Luiz Zanin Oricchio

27 de dezembro de 2011 | 23h10

O Palmeiras ameaça levar seus jogos para o interior. Luxemburgo se queixa da
falta de paciência com jogadores que acabaram de ser campeões. O que é isso?
A torcida pode se tornar inimiga do próprio time? Sim senhor. E nem se pode
dizer que o fenômeno venha de hoje. Com muita graça, o ex-ponta-esquerda do
Santos, Pepe, que fez parte do time considerado o melhor de todos os tempos,
disse outro dia que de vez em quando mesmo eles eram vaiados. Por apenas uma
parte ínfima da torcida e muito raramente, certo, mas mesmo assim…Vaiar
Pelé, Coutinho, Mengálvio, Pepe, Zito. Precisa estar muito de mal com a
vida. Esses eram jogadores que deviam ser aplaudidos de pé mesmo quando
estivessem fazendo aquecimento.
O fato é que, dado o nível atual do futebol praticado no Brasil, essa
impaciência dos torcedores com seus times tende a se tornar cada vez mais
freqüente. Nunca é demais lembrar que a relação de um torcedor com seu clube
é hoje muito diferente da do jogador ou do técnico. Estes, como eles mesmos
dizem sempre, são profissionais. Hoje estão aqui, amanhã ali, depois de
amanhã podem voltar como se nunca tivessem saído, beijando a camisa. O
torcedor não. Está sempre no mesmo lugar, com seu time. Chova ou faça sol.
Seja campeão, ou caia para a Segundona. Esse tipo de fidelidade soa até
antiquada nos dias de hoje. Mas ainda é assim. E, desse modo, o torcedor
vaia quando acha aquele jogador indigno de vestir uma camisa que ele ama. É
simples assim. Não estou dizendo que esteja certo e nem errado. Apenas
constatando um fato.
Também é curioso observar que Edmundo, até então ídolo inconteste do
Palmeiras, agora também já é criticado. E por quê? Por deficiência técnica?
Não. Porque se recusou a entrar naquela estúpida batalha campal que ocorreu
no Parque Antártica no jogo contra o Cerro Porteño. Foi o único a não brigar
e por isso recebeu muitos elogios dos comentaristas. Era prova de que
Edmundo por fim, e talvez tardiamente, havia chegado à maturidade. Pois bem,
a torcida, ou parte dela, entendeu a política de não-agressão do Animal como
simples desinteresse. E passou a cobrá-lo. Quem tem razão neste caso?
Difícil dizer. O fato é que as “cenas lamentáveis”, como se costuma dizer,
foram reprisadas à exaustão. E como Edmundo, por razões que só a ele
pertencem, recusou-se a participar desse “espetáculo”, acabou estigmatizado.
Sua atitude foi entendida (por alguns) como se tivesse renunciado à batalha.
Porque, para o torcedor, é de luta que se trata – daí, em falta de técnica,
a valorização da “raça”, que dignifica até uma derrota.
Enfim, com todo esse tipo de exigência, não é difícil entender por que uma
força favorável, como em tese é a torcida, pode se transformar em “fogo
amigo”, aquele que dispara contra suas próprias tropas. No caso do Santos,
que mal ou bem vem cumprindo seu papel, trata-se da frustração de
expectativa baseada num passado talvez idealizado. A torcida não se conforma
muito em ver a camisa que jogou o melhor futebol do mundo, e teve um genial
e breve espasmo criativo na era Diego & Robinho, praticando agora futebol
tão pragmático quanto despido de fantasia. Afinal, se Nelson Rodrigues teve
alguma razão naquilo que escreveu, vamos ao estádio não só atrás de
resultados, mas de um pouco de poesia.
Quer dizer, invenção, brilho. Tudo o que a primeira rodada do Campeonato
Brasileiro nos negou. Dos jogos que vi, o mais agradável foi o o empate
entre Vasco e Inter. O São Paulo fez o mínimo esforço para ganhar três
pontos diante do fraco Flamengo. E Santos e Goiás – campeões dos seus
estados – entediaram a platéia com um sonolento 0 a 0. Não vi Corinthians e
Grêmio, mas os melhores momentos mostram que a força sulina ressurgiu
intacta da 2ª divisão.
Foi a primeira rodada e estamos longe da poesia pretendida pelo nosso maior
cronista esportivo. Iremos encontrá-la ao longo do campeonato?

18/4/2006

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